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O Bem-Amado é amostra da fase mais fértil da história das novelas

A inclusão de O Bem-Amado no catálogo da Globoplay apresenta a novas gerações uma amostra daquela que pode ser considerada a fase mais fértil na história das telenovelas no Brasil. Um período que tem seu auge nos anos 1970, quando o gênero se desprendeu do cabresto da senhora Gloria Magadan para assumir perfil mais autenticamente brasileiro.

Gloria Magadan (1920-2001) foi uma autora cubana considerada por muito tempo grande autoridade na elaboração de folhetins, naquele estilo conhecido por “novela mexicana”. Em 1964, ela foi chamada pela TV Tupi para supervisionar a produção das novelas da emissora. Depois foi para a Globo, sempre impondo um modo de fazer novela, regada a muitas lágrimas.

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Mas como toda boa novela tem uma reviravolta, o próprio gênero tinha que ter também uma na sua história. Foi em 1968, quando a mesma TV Tupi que trouxe dona Magadan pôs no ar Beto Rockfeller, de Braúlio Pedroso. A trama protagonizada por um alpinista social, candidato a playboy, interpretado por Luiz Gustavo, começaria a enterrar os clichês impostos pela cubana, que se mudou para o México em 1970.

Inicia-se aí uma fase de experimentações e ousadia, tanto nos temas quanto na forma narrativa. O Bem-Amado (1973) é um exemplo. Usando como argumento uma peça que ele já tinha escrito, Dias Gomes levou para as novelas a crítica política e o humor ácido. O resultado é uma história atemporal, como se pode conferir agora.

O Espigão
Betty Faria e Ary Fontoura em O Espigão (1974)

Apesar da defasagem técnica, O Bem-Amado parece ter sido escrita a partir do que vivemos presentemente. Da mesma forma poderia soar muito atual O Espigão, que Gomes escreveu no ano seguinte, sobre os esforços de uma construtora para comprar um casarão histórico a fim de erguer no lugar um luxuoso hotel. Especulação imobiliária nunca sai de moda.

A exploração dos espaços urbanos e suas influências sobre as relações sociais e humanas também estava na trama de O Grito (1975), de Jorge de Andrade. O autor explora os conflitos de classe a partir de suntuoso edifício do centro de São Paulo, cujos proprietários moram na cobertura e, para enfrentar a desvalorização provocada pela construção do Minhocão, dividem os primeiros andares em apartamentos quarto-e-sala.

Ditadura e censura
Um aspecto curioso é a migração para as telenovelas de nomes do teatro, autores na maioria engajados politicamente, em plena ditadura militar. E a abertura que uma emissora sabidamente comprometida com o regime (a Globo) dava a esses autores e aos temas que eles propunham. O que não significa que não houvesse censura.

Em 1975, Roque Santeiro, de Dias Gomes, foi proibida poucos dias antes da estreia, sendo substituída por uma reprise de Selva de Pedra (1972), de Janete Clair. Em 1977, foi a vez de  Wálter George Durst sentir o peso da censura sobre Despedida de Casado, também riscada com X pelos censores e proibida de ir ao ar, por ser considerada  “atentatória aos bons costumes”.

Vindo do teatro como Bráulio Pedroso, Dias Gomes e Jorge de Andrade, Lauro César Muniz estava entre os que, além de trazer temas mais ousados para as tramas, propunham revirar a narrativa. Se Pedroso ousava contar a história toda em flashbacks a partir de um assassinato durante uma festa, em O Rebu (1974), Muniz ambientou O Casarão (1976) em três épocas (1900, 1926 e 1976), sem nenhuma linearidade.

E em Espelho Mágico (1977), o autor de O Casarão se arriscava na melindrosa missão de retratar os bastidores da televisão, do cinema e do teatro. Mas não só isso: mostrava os bastidores da produção de uma novela, Coquetel de Amor, e ia mais longe: exibia essa novela dentro da outra novela, Espelho Mágico.

A essa altura, Gloria Magadan vivia o ocaso de sua carreira, escrevendo um folhetim para a RCTV, da Venezuela. E até Janete Clair, que tinha sido sua pupila no passado, já havia forjado uma marca própria, em que combinava o estilo folhetinesco com temas mais próximos da realidade, como pedia o novo modelo brasileiro de fazer novela. O melhor exemplo foi Pecado Capital (1975).

Rumo aos 80
Outros nomes, como Walter George Durst (Gabriela, Nina) Cassiano Gabus Mendes (Locomotivas, Te Contei?, Anjo Mau, Marrom Glacê), Mário Prata (Estúpido Cupido, Sem Lenço Sem Documento) e Gilberto Braga (Dancin’ Days, Água Viva) colaboraram para esse bem-sucedido processo de modernização da novela brasileira.

A Moreninha
Mário Cardoso e Nívea Maria em A Moreninha (1975)

Braga, aliás, era o mais novo dessa turma. Deu seus primeiros passos numa experiência da Globo no horário das seis que também marcou essa época de ouro das novelas: as adaptações de obras da literatura brasileira em preciosas tramas de época. São dele dois grandes sucessos do horário: A Moreninha (1975) e Escrava Isaura (1976).

Gilberto Braga é o link mais forte entre essa geração setentista e os anos 1980, em que os autores  trilhavam um caminho já pavimentado. O que, por um lado, garantiu sucessos estrondosos (entre eles uma nova versão de Roque Santeiro), e por outro tornou mais difícil para os criadores inovar.

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