Música

Camilla Inês amplia seu universo musical em Gotas de Oceano

Atravessamos tempos difíceis, mas, em meio a morte e incertezas, a criatividade humana continua produzindo coisas bonitas, como flores que nascem do lodo. É o caso do novo disco de Camilla Inês, Gotas de Oceano, um EP de sete faixas já disponível nas plataformas digitais.

O primeiro diferencial deste em relação aos trabalhos anteriores da cantora pernambucana-brasiliense (Jazzmine, de 2011, e The Rythm of Samba, de 2015) é que ele é todo feito de composições autorais, compostas em meio aos contratempos causados pela pandemia do coronavírus.

capa-gotasdeoceano

Foi durante uma temporada em Portugal, em 2019, que Camila encontrou inspiração para começar a compor. Voltou para resolver coisas no Brasil com planos de retornar à Europa, mas acabou sendo impedida de retomar seu projeto por lá devido ao isolamento social imposto pela pandemia.

E foi no isolamento, em Brasília, que ela concebeu Gotas de Oceano, no qual surpreende positivamente ao expor habilidade e versatilidade na arte da composição. Conhecida como intérprete em incursões no jazz e no samba jazz, a artista amplia muito seu universo neste pequeno disco.

Camilla já havia mostrado uma parceria dela com Roberto Menescal em The Rythm of Samba (Talvez Eu te Encontre por Aí), mas aquilo não foi nada diante do que ela nos mostra agora. Se não é instrumentista hábil, como diz, a cantora tem a seu favor um ouvido musical privilegiado.

Isso a permite transpor para suas composições as influências mais ricas da MPB. A toada Morena poderia fazer parte do repertório de Luiz Gonzaga; João Donato “baixa” na aveludada bossa Vã Filosofia (a faixa que mais se aproxima dos discos anteriores da cantora); o balanço suave de Sereia nos leva a navegar pelo universo marítimo-musical de Dorival Caymmi…

Mas Gotas de Oceano causa impacto logo de saída é com a pegada pop e dançante, meio funk/soul, de Contra-o-Ponto, na qual Camilla reflete sobre o enquadramento do indivíduo pela convivência social. Também na linha pop e reflexiva, Tudo É Fugaz aparece como uma das mais belas faixas do disco.

Mais intimistas, as delicadas Gotas de Oceano (que dá título ao EP) e Leiria (composta quando a artista estava na cidade portuguesa) soam aos nossos ouvidos como carinho, mais que necessário nestes tempos espinhosos — embora todo o disco seja um verdadeiro alento para o momento que passamos.

Por fim, é justo citar que, além do visível talento de Camilla como compositora, a qualidade de Gotas de Oceano é garantida pela equipe de colaboradores. A começar pela preciosa produção do experiente Swami Jr. (que fez arranjos, tocou guitarra, violões, baixo elétrico, teclados, programações e ainda fez dueto com ela nos vocais de Vã Filosofia).

E as presenças do acordeon de Mestrinho, em Morena, e do Grupo Samba de Coco Raízes de Arcoverde, em Sereia, e o belíssimo projeto gráfico de Érika Azuma e Rodrigo Disperati (Estúdio Collecta) ajudam a dar a Gotas de Oceano a configuração de pequena grande obra que ele é.

3 comentários

  1. A reportagem faz jus à beleza de uma obra autoral de uma cantora que trás em sua alma a essência e a beleza da boa música. Mas que, também, é capaz de transgredir o momento presente com pétalas carinho. É como se trouxesse luz aos nossos corações.
    Um belíssimo e muito sensível trabalho.

    Curtido por 1 pessoa

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