Comer & Beber Sem categoria

O que o hambúrguer tem a ver com o calorão que está fazendo

Não vamos nos iludir. Não adianta compartilhar nas redes sociais nossa indignação com o desmatamento da Amazônia, do Cerrado e as queimadas no Pantanal, mas não abrir mão de um churrasco no fim de semana, de comer um hambúrguer ou de um molho à bolonhesa com bastante carne moída sobre uma boa massa. O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo.

E não é nenhuma novidade. Sucessivos relatórios da ONU têm reiterado que a redução no consumo de carnes e sua substituição por alimentos de origem vegetal “apresenta grande potencial de mitigação das mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que gera benefícios significativos para a saúde humana”.

Em 2014, os cineastas americanos Kip Andersen e Keegan Kuhn partiram de dados publicados pela organização para fazer o contundente documentário Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade (2014), que mostra o problema da perspectiva americana (disponível na Netflix e altamente recomendável).

Em 2018, o brasileiro Marcio Isensee e Sá fez também um filme documental, Sob a Pata do Boi (2018), disponível no Prime Vídeo, que mostra a trágica situação da Amazônia. Na região, em 2018, havia 85 milhões de cabeças de gado, três para cada habitante humano. Um salto gigantesco em relação à década de 1970, quando quase não havia bois na floresta.

No Acre, por exemplo, a população bovina chegou a aumentar 151,7% entre 1996 e 2017. Em quatro décadas, a Amazônia perdeu uma porção equivalente ao território da França, do qual 66% virou pastagem. Pastagem para alimentar gado, que vai para o abatedouro, de lá para os mercados e açougues e destes para nossos pratos.

Efeito estufa
No ano passado, a ONU (Organização das Nações Unidas) apresentou em Genebra mais um relatório  sobre mudanças climáticas, desertificação, degradação da terra, gestão sustentável da terra, segurança alimentar e fluxos de gases de efeito estufa (GEE) em ecossistemas terrestres. Novamente, o problema esbarra nos rebanhos.

Elaborado por mais de 100 pesquisadores de diversos países (incluindo o Brasil), o documento traz números assustadores e conclui, entre outras coisas, que a criação de gado produz mais gases do efeito estufa do que as emissões de todo o setor de transporte – incluindo carros, caminhões, trens barcos e aviões juntos.

De acordo com os pesquisadores, o gás metano gado produzido em grande quantidade por gado e outros rebanhos em seu processo digestivo é 86 vezes mais destrutivo do que o dióxido de carbono dos veículos. Dessa forma, esses animais desempenham papel importantíssimo no aquecimento global.

Soma-se a isso o consumo de recursos naturais, já que evidentemente bois, vacas e outros bichos criados em cativeiro precisam beber e comer. Para se ter ideia, nos Estados Unidos, a indústria de gás natural e produção de petróleo consome 378 bilhões de litros de água por ano; a criação de gado, 125 trilhões de litros.

É que, além de beber, os bichos se alimentam de grãos que consomem muita água e toda água contida no grão que o animal come é considerada parte da pegada hídrica desse produto – pegada hídrica é um indicador do volume de água doce gasto na produção de bens e serviços.

Pegada hídrica no Brasil
O Brasil está entre os países que mais gastam água para produzir bens de consumo, segundo um estudo norte-americano publicado na revista da Academia Nacional de ciências dos Estados Unidos (PNAS). A publicação coloca o Brasil em 4º lugar entre os países que mais usam água na produção agrícola e de bens de consumo, segundo dados do CicloVivo – site de notícias especializado em temas relacionados à sustentabilidade.

Em 2017, uma pesquisa no Estado de São Paulo coordenada pela Embrapa Pecuária Sudeste (SP), feita a partir de informações climáticas e produtivas de 17 fazendas de animais da raça Nelore, indicou que, no Brasil, são usados em média 5.718 litros de água para produzir 1 kg de carne – para efeito comparativo, 1 kg de arroz consome 1.670 litros.

De acordo com informações do site Water Footprint, para que uma pizza marguerita seja feita são necessários 1.260 litros de água. Desse total, 50% equivalem à muçarela. Sim, porque tem ainda os laticínios e os processados de proteína bovina, consumidos ordinariamente em nosso cotidiano.

Sobre tudo isso, os diretores de Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade apresentam uma conclusão brilhante: a população humana consome 20 bilhões de litros de água de todos os dias e come 10 bilhões de quilos de alimentos. Somente 1,5 bilhões de vacas bebem 170 bilhões de litros de água todos os dias e comem 61 bilhões de quilos de alimento.

Considerando que em 2014 estimava-se em 70 bilhões o número de animais criados no mundo, os cineastas observam que “já não se trata somente de um problema de população humana, mas de uma população humana que come carne”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: