Música

Pet Shop Boys e Erasure brincam com a passagem do tempo

Erasure acaba de lançar mais um álbum, The Neon. Pet Shop Boys lançou Hotspot no começo deste ano. Uma e outra banda inauguraram suas discografias em 1986, o que significa que lá se vão três décadas e quatro anos de carreira (sem contar o período pré-primeiro disco).

É uma longevidade rara e impressionante no mundo pop, considerando que ambas ganharam fama com um som que marcou muito os anos 1980 e 1990, o que tornava grande o risco de ficarem datadas e maior ainda o desafio de superar os hits agradavelmente grudentos que as consagraram. Os motivos dessa longevidade, tudo indica, são dois.

O primeiro é o fato de serem duos. Ou seja, quanto menos gente, menos conflito, e nisso PSP e Erasure ganham vantagem sobre outras bandas. O segundo é que as duas duplas nunca ficaram mais que dois anos sem gravar um álbum, e a cada novo lançamento reafirmam o que propunham musicalmente desde o início. Ou seja, em vez de reinventar, consolidaram mais e mais o que deu certo.

Erasure_Foto Joe Dilworthsm

Numa entrevista à MTV, Neil Tennant (PSP) tem outra explicação: “Nós nos divertimos muito escrevendo. Há muitas risadas. Temos sorte, na verdade.  (…) Não é apenas um trabalho. É mais divertido do que isso. Toda criatividade está fora de um senso de jogo. Chris e eu nunca perdemos esse senso de brincadeira”.

O mesmo espírito lúdico, ao que parece, guia o Erasure. Só isso explica que Andy Bell ainda suba ao palco usando um collant que evidencia a barriga proeminente e as pernas finas, bem diferentes do corpo definido que exibia nos primeiros anos da dupla com Vince Clark.

Foi o que se viu na turnê mais recente do Erasure aqui pela América Latina. E quando faz isso, é com despudor que o cantor expõe a passagem do tempo, brinca com o inevitável, celebra a vida e a própria existência – desde 1998, ele é portador do vírus HIV.

Erasure
Andy Bell em show em São Paulo, em 2018

O passado é agora
E se ao longo desses 34 anos, PSB e Erasure tiveram altos e baixos, incluindo discos que passaram (merecidamente) despercebidos, Hotspot e The Neon coincidem numa coisa: são ambos, do início ao fim, muito palatáveis, fáceis de ouvir, a audição transcorre como se você conhecesse aquelas músicas desde sempre.

E nisso remetem ao que as duas bandas fizeram de melhor nos tempos mais áureos. Happy people e I Don’t Wanna, de Hotspot, estão em pé de igualdade com os grandes clássicos do PSP.  O mesmo acontece com Hey Now e Shot a Satellite, de The Neon, em relação à obra do Erasure.

Há sim algo propositalmente vintage nos dois álbuns. “O som está mais analógico, nostálgico. Gravamos com instrumentos vintage, alguns espalhados pelo chão (…) Num dado momento, os elementos de uma canção – baixo, bateria, teclados e vozes – foram executados em quatro caixas de som separadas, dentro do estúdio, como se fosse uma banda ao vivo, e regravados, para dar esse gosto mais analógico”, contou Neil Tennant em matéria da Folha.

Andy Bell, por sua vez, falou numa entrevista que, para ele, “este álbum é sobre pop original, Vince e eu apenas sendo duas pessoas sozinhas fazendo a música, tornando-a alegre. E noutra: “The Neon é um lugar que vive na imaginação, que nós (você e eu) colocamos no mundo real. Poderia ser uma boate, uma loja, uma cidade, um café, um país, um quarto, um restaurante, qualquer lugar. É um lugar de possibilidade sob luz quente e brilhante e é essa música que o leva até lá”.

O público, sejam cinquentões saudosos que lotam os shows PSP e do Erasure ou novos admiradores, tem aceitado a brincadeira das duas bandas. Afinal, se não houvesse público, não haveria carreira, é claro.

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