Livros

Distopias dominam lista de livros mais vendidos: o futuro começou?

Governos autoritários, liberdades individuais ameaçadas, sentimento de injustiça. Soa como uma notícia qualquer sobre atualidades, mas são características das chamadas distopias. Na literatura, o gênero tem muitos exemplos famosos, tanto clássicos quanto contemporâneos. E parece que, nos últimos tempos, elas estão por toda a parte.

Prova é a lista de livros mais vendidos, analisada pelo Boníssimo. Na da revista Veja, talvez a principal do país, diversos títulos nessa tendência figuram entre os campeões de comercializações no Brasil categoria ficção. Só em 2020, 12 estiveram no ranking nas 32 semanas analisadas, de janeiro a agosto (na primeira edição do ano a publicação elencou o top 10 de 2019 e de abril a junho, por causa da pandemia, a estatística foi feita exclusivamente sobre as vendagens em plataformas on-line).

Entre tantos, apenas um exemplar nacional teve lugar garantido, A Realidade de Madhu, publicado em 2014 por Melissa Tobias, que viralizou na internet por causa do trecho onde se descrevia uma “pandemia global” neste mesmo ano em que vivemos em perigo.

Gráfico Distopias

Como o próprio nome deixa claro, as distopias são o contrário das utopias, ou seja, dos universos considerados ideais. De acordo com a professora de literaturas Maria Aracy Bonfim, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), o termo teve origem nos idos de 1747 baseado em outros dois, gregos, “dis” e “topos”, que juntos podem ser traduzidos como “lugar desprezível”, ou ainda, definido na mesma época, “um país infeliz”.

Big Brother
Mas foi no século 20 que essa nova palavra cresceu como estilo literário, adquirindo a forma que tanto agrada até hoje. O britânico George Orwell, nascido Eric Arthur Blair, é o autor das mais famosas delas. Em 1984 (1949) viu o futuro com cidadãos vigiados o tempo todo pelo Grande Irmão, ou Big Brother, expressão décadas depois transformada em sinônimo de reality show na “vida real”. Já A Revolução Dos Bichos (1953) conta uma fábula onde os animais se fartam dos abusos dos humanos, trama criada durante a passagem do autor pela Guerra Civil Espanhola.

Dependendo dos rumos que toma a História, o gênero até bebe na fonte do que já passou, vide Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, sobre uma sociedade em que livros são artefatos perigosos e devem ser queimados. Impossível não relacionar à fogueira da Bebelplatz, em Berlim, em que nazistas fizeram igual anos antes. Mas, mais que isso. Elas não só reinventam acontecimentos passados, como também nos ajudam a antecipar um possível futuro. “Ler uma distopia nos dá o mapa de onde não queremos ir”, explica a professora Maria Aracy.

Não parece coincidência, portanto, que o interesse por essas obras parece ter crescido, como apontado pela lista de livros mais vendidos, em tempos atuais de governos desgovernados, “cidadãos de bem” sem empatia, negacionistas da ciência e, ainda por cima, com uma pandemia no meio de tudo. “A política mundial desperta interesse no tema porque há um convite embutido nas distopias a revisar atitudes pessoais e sociais – e isso se mescla violentamente ao posicionamento político”, destaca a docente.

1984 - Saraiva

Também na TV
Outras mídias também refletem o tema da moda. Lançado em 1985, O Conto da Aia, da canadense Margaret Atwood, virou série de TV em 2017. A premiadíssima The Handmaid’s Tale (foto no alto), disponível na Globoplay e no Paramount, exibe perspectiva grotesca: em um Estado totalitário que um dia foi os Estados Unidos, mulheres férteis são estupradas e obrigadas a gerar filhos para famílias abastadas. Tamanho sucesso gerou uma continuação literária, Os Testamentos, lançada ano passado.

Sobram exemplos em outros canais. Fahrenheit 451 ganhou nova adaptação em filme para a HBO em 2018. O Homem do Castelo Alto, baseado no romance do mestre da ficção científica Philip K. Dick (1962), mostra o mundo em que Hitler ganhou a Segunda Guerra Mundial em quatro temporadas na Amazon Prime Video. Admirável Mundo Novo, da obra de Aldous Huxley (1932), com Demi Moore no elenco, está em cartaz no serviço americano de streaming Peacock.

Fã do gênero na literatura e fora dela, a biomédica Ana Terra, 31 anos, moradora de São Paulo, acredita que essas adaptações ajudam a popularizar o tema, bem como se relacionam a aspectos da nossa vida contemporânea. “Estamos vivendo em um confinamento que é bem assustador, por isso é automático ligar os fatos com a ficção que já lemos. No começo da pandemia lembrei de Caixa de Pássaros (2014), escrito por Josh Malerman, que fala sobre o fim dos tempos para os humanos, que devem ficar isolados por causa de criaturas que não podem ser vistas. Virou filme na Netflix, que é bem legal (foto abaixo)”, conta.

Bird Box - The Australian

Não-ficção
Se na lista de mais vendidos reina o desespero com futuros tenebrosos, ao mesmo tempo, na não-ficção, o presente mostra-se promissor. Popularizam-se obras engajadas. Na mais recente compilação de Veja, a da semana de 19 de agosto,  o feminista Mulheres Que Correm com Os Lobos, Clarissa Pinkola Estés, lidera. Fazem parte ainda do top 10 Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, e Racismo Estrutural, por Silvio Almeida.

Nesse sombrio período, em que os livros podem ganhar taxação absurda pelo ministro da estante vazia, entre outros despautérios, talvez tenhamos certeza de que a nossa distopia é agora. Mas, assim como na ficção, mesmo no pior dos cenários existe a esperança de que as coisas melhorem nos próximos capítulos.

 

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