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I May Destroy You: a era #MeToo vista pelos millennials

O caso Harvey Weinstein mexeu com o entretenimento. Décadas de abusos sistemáticos perpetrados por ele e outras figuras, principalmente contra mulheres, vieram à tona. Desde então, com rapidez alucinante, histórias sobre assédio e violência sexual tornaram-se recorrentes, em filmes, como O Escândalo (a partir de 28/8 na Amazon Prime Video), ou as séries The Morning Show (Apple TV+) e The Loudest Voice (Showtime).

Atualmente, a atriz e roteirista inglesa Michaela Coel apresenta na televisão um dos relatos mais impressionantes deste período conhecido pela hashtag #MeToo: I May Destroy You, série da HBO (exibida às segundas-feiras, às 23h, e disponível nos serviços de streaming do canal).

No piloto, somos apresentados à escritora Arabella. Mulher negra em seus 30 e poucos anos, ela simboliza a geração millennial, aquela que não é boomer, mas também não é Z. A mesma, por exemplo, de Phoebe Waller-Bridge e sua Fleabag.

Traduzindo, os nascidos entre 1980 e 1995. No caso dos ingleses, em algum lugar do passado enquanto Margaret Tatcher estava no poder ou em que o escândalo da separação de Charles e Diana dominava as manchetes. Ou, ainda, durante o sucesso de Absolutely Fabulous na TV.

Depois de um período na Itália junto do “crush”, a moça volta para Londres a fim de terminar o rascunho da mais nova obra. Empacada no pisca-pisca do cursor na tela, Arabella tenta lutar contra as tentações, mas o chamado para a noitada fala mais alto.

Ela resolve encontrar os amigos para curtir um pouco. Daí para frente, tudo fica embaçado. Só ao chegar em casa no dia seguinte, com o celular quebrado e um corte na cabeça, começa a recordar o que aconteceu. Tinha sido vítima de um abuso sexual.

Ao invés de enveredar em um mistério sobre o passo a passo da fatídica noite, a série mostra, de modo muito perspicaz, autêntico, as repercussões de um ato tão violento e de como elas não seguem nenhuma cartilha, ao contrário do que muitos possam imaginar.

Arabella sente medo, vergonha e tristeza. Mas ao mesmo tempo mantém a vida cotidiana, faz as pazes com o próprio passado e questiona atitudes antes consideradas inofensivas, mas verdadeiramente abusivas.

Por exemplo, o novo affair que tira a camisinha durante o ato sexual sem avisá-la. O choque dessas situações ecoa a voz de várias outras vítimas, mulheres que agora, depois de anos e anos de silêncio, se fazem ouvir na marra.

A protagonista, na série autora do livro A Millennial de Saco Cheio, encarna exatamente a mulher desta geração, buscando o próprio caminho entre a anterior, que, por força das circunstâncias, encarava como normais os maiores absurdos, e a posterior, que parece já ter nascido desconstruída.

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Para isso, a narrativa não se esquiva de mostrar, por meio de Arabella e seus amigos, o uso recreativo de drogas, a sexualidade explorada de maneira livre, além daquele conhecido vício em celular e redes sociais. São levadas ao espectador também dúvidas, anseios, a crueza do autoconhecimento.

A série se destaca pela atuação e texto de Michaela, inglesa, filha de ganeses, também estrela e cocriadora de Chewing Gum (em cartaz na Netflix, BAFTA de melhor performance feminina em comédia). Ela aproveita bem a liberdade da HBO para tratar assuntos sem tabu. Mais que isso. A atriz baseou a trama central de Arabella em sua própria experiência com abuso sexual.

“Está sendo difícil, mas também uma catarse, pois estou refletindo sobre um período obscuro ao invés de sentir que está acontecendo comigo agora mesmo”, contou à Radio 1 Newsbeat. “O programa lida com aquele momento onde o consentimento foi roubado de você, onde o momento onde você poderia tomar uma decisão se perdeu”, explica.

Com sete episódios exibidos no Brasil (são 12 ao todo), o programa é uma das produções mais impactantes dos últimos tempos. E, aposto, Michaela Coel, criadora, roteirista, atriz e codiretora da empreitada já pode arrumar espaço na estante: os prêmios de TV no ano que vem certamente serão dela.

Seja millennial, boomer ou Geração Z, assistir I May Destroy You é testemunhar, quase em tempo real, que os tempos mudaram. Ainda bem.

 

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