Música

Elis & Tom: bastidores de uma obra-prima da música brasileira

Em janeiro de 1974, um encontro entre Elis Regina e Tom Jobim, em Los Angeles, resultou em uma obra-prima, o álbum Elis & Tom. Lançado no mesmo ano pela Polygram, o LP de 14 faixas foi sucesso de crítica e de vendas e até hoje é presença obrigatória em qualquer lista de melhores discos da história da música brasileira.

Mas, ao contrário do que possa parecer, Elis & Tom não é produto de uma amizade de longa data entre cantora e compositor. Embora nutrissem admiração mútua, Elis Regina e Tom Jobim se conheciam superficialmente e ele soube do projeto praticamente em cima da hora da realização. Na verdade, nem se empolgado de imediato com a ideia.

Essa é uma dos detalhes sobre o processo de produção do álbum que César Camargo Mariano só foi contar 37 anos depois, em seu livro de memórias, Solo (Editora Leya, 2011). Pianista e marido de Elis à época, César foi arranjador de muitos dos discos da mulher, incluindo Elis & Tom, a despeito da desconfiança inicial de Tom Jobim.

elisetomcapaAqui algumas das curiosidades de bastidores que ele conta em seu livro:

1.
Elis alimentava o sonho de gravar um disco com músicas de Tom Jobim e participação do próprio desde que ouvira Por Toda Minha Vida, álbum lançado por Lenita Bruno (1926-1987) em 1968, com canções de Jobim e Vinicius de Moraes em arranjos do maestro Leo Peracchi (1911-1993).

2.
A chance veio quando ela fez dez anos de carreira e André Midani (1932-2019), presidente da gravadora Phonogram, da qual era contratada, lhe disse que podia escolher o presente que quisesse. Mesmo considerando as dificuldades logísticas — Tom morava, então, em Los Angeles –, o projeto começou a ser posto em prática.

3.
Até César e Elis chegarem a Los Angeles para começar a produção, Jobim não sabia de nada. Para “avisá-lo”, o casal contou com ajuda do amigo Aloysio de Oliveira (1914-1995), que era também amigo e parceiro musical do autor de Sabiá. “Chovia muito em Los Angeles quando saímos pela porta principal do aeroporto. E lá fora, de pé, nos esperando, estava o Tom Jobim, com uma capa de gabardine à la Humphrey Bogart, guarda-chuva e uma rosa vermelha na mão, para a Elis”, conta César Camargo no livro.

4.
Depois de muitas voltas, Aloysio finalmente disse o motivo por que estavam na cidade. Jobim ficou reticente quanto à ideia, e mais reticente ainda quando soube que os arranjos seriam feitos por César Camargo Mariano. Achava que era loucura, cogitou chamar um arranjador americano, mas Aloysio tratou de pôr as coisas no devido lugar: era um projeto alimentado há tempos pelo casal.

5.
O repertório foi definido em uma noite, com músicas escolhidas numa lista de 48 sugeridas por César e Elis.

6.
Em muitos momentos da feitura do disco, Jobim se mostrou um… mala (gênios também são humanos). Por exemplo, ligava o tempo todo, às vezes no meio da noite, para saber de César Camargo como ia o trabalho de criação dos arranjos; trazia observações que o arranjador rebatia e, no estúdio, fez brincadeiras “às vezes meio pesadas” — mas também “comentários espirituosos”.

7.
Elis & Tom foi gravado em dois dias no MGM Records. Como o estúdio estava em férias coletivas, só disponibilizou um “técnico de som”, que anos depois César Camargo descobriu ser, na verdade, apenas um auxiliar. Mas Humberto Gatica (sobrinho de Lucho Gatica) fez tão bem o trabalho que ascendeu na indústria fonográfica por causa do Elis & Tom.

8.
Na véspera de entrar em estúdio, César descobriu que não poderia reger os músicos americanos porque não era filiado a nenhum sindicato. Aloysio de Oliveira sugeriu então chamar Bill Hitchcock, que foi guiado por Mariano. “Ou seja, fiquei regendo o regente. Que absurdo…”

9.
A ideia era que Jobim fizesse alguns arranjos, mas ele só fez um, da música Soneto da Separação (uma das duas que ele canta com Elis).

10.
Quando o disco estava pronto, César e Humberto foram à casa de Jobim com uma cópia doméstica para ouvirem juntos. “Sentou-se no chão com as pernas cruzadas, nos  sentamos um de cada lado dele, e, no que a primeira música encheu a sala, ele teve uma crise de choro”, conta o arranjador.

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