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Tieta retorna em boa hora com seu deboche ao falso moralismo

Ofertas cuponsA novela Tieta entrou no catálogo da Globoplay e é uma delícia reencontrar um time de atores formidáveis em personagens marcantes e situações pitorescas, desenvolvidos por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn a partir do romance de Jorge Amado.

Tieta continua engraçadíssima e capaz de prender a atenção do espectador capítulos a fio. Infelizmente, continua também muitíssimo atual (apesar da visível defasagem técnica). O que não deixa de ser um tanto triste, porque reforça nossa certeza de que algumas coisas (ruins) não mudam no ser humano.

Duas delas são bastante evidenciadas na trama: o falso moralismo e o machismo, que inspiraram Jorge Amado em 1977, quando o romance foi lançado; que continuavam a existir em 1989, quando a novela foi exibida pela primeira vez, e que se mostram mais vivos do que nunca três décadas depois.

Perpétua (Joana Fomm), por exemplo, é a caricatura perfeita de um tipo muito em evidência no momento: aquele que se apega aos próprios valores, geralmente baseados na religião e na tradição (“é assim porque foi sempre assim”), e não admite que se pense e viva diferente.

Tomada por um falso moralismo, Perpétua condensa em suas falas e atitudes o pensamento dos que defendem a tirania contra as liberdades individuais em nome da moral e dos bons costumes. São muitos os momentos em que temos a sensação de que a personagem foi criada ainda ontem, inspirada por eventos recentes.

Já o machismo retratado na novela, visto de hoje, chega a ser chocante para quem tem um mínimo de bom senso. A começar pelo Coronel Artur da Tapitanga (Ary Fontoura), que mantém em casa uma coleção de meninas, compradas como objetos, que ele chama de “minhas rolinhas”.

Também entra na categoria de objeto a Carol (Luiza Tomé), “importada” de Salvador por Modesto Pires (Armando Bógus) para ser mantida feito boneca em uma casa cheia de frufrus e isolada de todo mundo, enquanto ele leva sua vida ao lado da mulher e da filha na cidade.

E tem ainda Zé Esteves (Sebastião Vasconcelos), o abominável e sovina pai de Tieta (Beth Faria), que trata a patadas a mulher Tonha (Yoná Magalhães), bem mais nova do que ele e com quem, já viúvo, se casou mediante acordo com o pai dela.

Por meio de diálogos primorosos, carregados de humor, malícia e deboche, os autores de Tieta expõem o ridículo e o absurdo dessas situações e desses tipos, de “vida estreita” e “ambição pequena”, como diz Caetano Veloso na música-tema para o filme de Cacá Diegues também inspirado pelo livro de Jorge Amado.

Na história, como sabemos, a volta de Tieta à fictícia Santana do Agreste vai provocar um abalo sísmico nessas convicções. Quem sabe a volta da novela na Globoplay não provoca pelo menos algumas reflexões? Vale tentar se deixar banhar pela luz de Tieta. É um exercício saboroso.

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