Música

O maestro Alexandre Innecco e a arte de compartilhar a arte

Ofertas cuponsO tenor e maestro Alexandre Innecco acredita que, sim, é papel do governo fomentar a cultura de todas as maneiras, inclusive financeira. Mas prefere ter liberdade de fazer do seu jeito sem ter que recorrer a editais. Por isso, em 2011, voltando a Brasília depois de se formar em música pela Indiana University e fazer mestrado em regência pela Missouri University, ambas nos Estados Unidos, criou o ECAI (Espaço Cultural Alexandre Innecco).

O pequeno centro cultural promove assiduamente concertos, cursos, workshops e palestras; mantém dois corais, o Vox Animae (misto, na foto de cima) e o Lux Animae (feminino); aluga salas para ensaios e conta com um clube de sócios, que pagam mensalidades para ter acesso livre ou descontos nos ingressos das atividades.

Em nove anos, o ECAI tem dado certo. A sede ganhou mais espaço no bloco A da CLN 116 e a programação, que no início era feita basicamente pelo próprio Innecco, foi sendo ampliada, passando a incluir cursos de idiomas, atividades de teatro, clube de leitura, eventos gastronômicos. Tudo bancado por mensalidades e ingressos e inscrições de não-sócios.

Mas aí vieram a pandemia do Covid-19 e a quarentena. Alexandre Innecco encontrou nas redes sociais uma forma de se manter em movimento. No Instagram, faz lives com convidados. No YouTube, publica palestras e uma interessante Enciclopédia Musical em português e inglês, em que cada vídeo (de até 2 minutos) é um verbete.

“Não ganho um centavo, mas mantenho minha ‘base’ animada”, diz o maestro. Mas, é claro que o ECAI, como todo empreendimento, continua pagando as contas e, para isso, tem recorrido à boa vontade dos que não querem ver uma iniciativa como essa morrer. Em entrevista ao Boníssimo.blog, Alexandre Inneco conta como tem sido essa aventura.

Alexandre Innecco_ em palestra no ECAI _ Foto Joao Campello
O tenor e maestro Alexandre Innecco em uma de suas palestras no ECAI (Foto: João Campello)

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O ECAI é um case exemplar de como viver de arte e cultura sem recorrer a editais e coisas do tipo. Quando você se convenceu de que isso seria possível?

Na verdade, até hoje ainda não sei se isso será possível (risos nervosos)… Agora falando sério: comecei a trabalhar partindo da premissa que não queria esse tipo de fundos. Nunca gostei de editais porque limitam a utilização do dinheiro. Quando você responde a um edital público ou privado, você — é claro, e com razão — recebe financiamento baseado em certas condições de utilização da verba e de alguma contrapartida.

Honestamente, sem querer ser engraçadinho e sem querer ofender ninguém, não tenho tempo para estudar edital, nem pra pensar em contrapartida e muito menos não quero ninguém dizendo como é que eu devo usar o dinheiro arrecadado. E finalmente,  para deixar bem claro, acho que o papel do governo é, sim, fomentar a cultura de todas as maneiras possíveis, inclusive financeira.

Outro dia, fui confrontado por uma colega que me disse que minha atitude é egoísta porque enfraquece a classe artística. Quero deixar muito claro que acho fundamental todo centavo que possa ser angariado via projetos culturais governamentais ou particulares. Só não quero esse financiamento pelas razões já especificadas. Mas não direi “desta água não beberei”. Se algum dia vier a precisar, pleitearei.

“As pessoas que poderiam pagar R$ 100 por um ingresso da OSTNCS assistem de graça, e aí, quando vão a Nova York, pagam US$ 100 para ver a New York Philharmonic. Não faz sentido algum. E isso foi ensinado ao longo dos anos.”

Percebe-se uma grande resistência das pessoas a pagar por certas atividades artísticas. A que você atribuiria essa cultura?

Excelente pergunta, e a minha resposta é horrivelmente antipática. O que acontece é que, por muitos anos, treinamos a plateia a não pagar pelo produto artístico ao vivo, e agora não entendemos porque ela reclama quando tem que pagar. Por exemplo: quando alguém vai ao cinema, ninguém imagina que a sessão será gratuita. Por quê? Ué… cinema é uma atividade paga, ora bolas. Nunca foi gratuita.

O dono do cinema tem que pagar o aluguel da sala, os funcionários, o contrato com a distribuidora, etc. Se com o cinema é assim, então por que um concerto da Orquestra Sinfônica deveria ser gratuita? Não faz o menor sentido. Nenhuma orquestra que se preza, em nenhum lugar do mundo, tem sua programação gratuita. Nem em Moscou, nem em Havana, nem na época da Berlim Oriental. Nunca. Não existe isso. Uma coisa são sessões educativas para certo público (infantil ou carente, por exemplo). Isso é fantástico. Outra coisa é fazer toda a programação grátis.

Não existe “grátis”. Alguém pagou por aquilo (e alguém, é claro, sou eu e você, através dos impostos). E o mais injusto dessa gratuidade é que as pessoas que poderiam pagar R$ 100 por um ingresso da OSTNCS (Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro) assistem de graça, e aí, quando vão a Nova York, pagam US$ 100 para ver a New York Philharmonic. Não faz sentido algum. E isso foi ensinado ao longo dos anos.

“O ECAI está hoje de um tamanho ótimo: tenho um bom número de clientes, de professores e artistas associados ao Espaço, e posso tirar os fins de semana para descansar como qualquer outro cidadão. Adoro trabalhar e adoro meu tempo sozinho também.”

O talento artístico você já vinha mostrando nos palcos. E o de administrador, de onde surgiu? Consegue conciliá-los?

Em minha interminável carreira estudantil, passei por três universidades: Universidade de Brasília (comunicação e música, ambos incompletos), Indiana University (graduação em canto) e University of Missouri (mestrado em regência). Em nenhuma delas, recebi uma aula sequer sobre “como sobreviver sendo músico”. Isso sempre me chamou muito a atenção. Acho inacreditável que um músico se forme numa universidade e não saiba como conseguir um agente, nem tenha uma mínima noção de contabilidade.

Acho que me virei porque gosto de comércio. Sempre me achei meio parecido com o seu Nacib da Gabriela do Jorge Amado… naquele boteco. O boteco era um ponto de encontro, assim como o ECAI. O resto veio a reboque… se você gosta do relacionamento com os clientes, o resultado é mais fácil.

Não tive pressa para crescer, e não tenho nenhuma intenção de crescer mais. O ECAI está hoje de um tamanho ótimo: tenho um bom número de clientes, de professores e artistas associados ao Espaço, e posso tirar os fins de semana para descansar como qualquer outro cidadão. Adoro trabalhar e adoro meu tempo sozinho também.

“Durante três anos, foi só isso. Não tinha funcionário. Eu chegava duas horas antes, limpava o chão, os vidros, tomava banho de perfume, trocava de roupa e abria a loja para receber os alunos, que comecei a arregimentar via e-mail, explorando amizades antigas. Um a um. Aos poucos esses “um a um” trouxeram outros.”

Na era das relações virtuais, você criou uma comunidade que se relaciona de verdade, presencial. Como se deu a arregimentação desse público?

Foi trabalho de formiguinha. Nasci em Brasília, cresci aqui, e morei fora do Brasil por 15 anos. Quando voltei, em 2011, levei o maior susto. Ninguém sabia quem eu era. Ninguém, exceto minha mãe e alguns amigos. Mas aquele público que vinha me assistir na década de 1990 simplesmente não existia mais. Foi uma pedrada no meu imenso ego de tenor. Então, abri o ECAI muito pequenininho. Era uma salinha de 20 m2 e apenas uma palestra semanal, às segundas-feiras. Só isso.

Durante três anos, foi só isso. Não tinha funcionário. Eu chegava duas horas antes, limpava o chão, os vidros, tomava banho de perfume, trocava de roupa e abria a loja para receber os alunos, que comecei a arregimentar via e-mail, explorando amizades antigas. Um a um. Aos poucos esses “um a um” trouxeram outros.

E em 2014 inventei o Clube ECAI, que é um sistema de mensalidade fixa onde os sócios podem assistir a toda a programação (que hoje acontece de segunda a sexta e inclui palestras, concertos, jantares, aulas em quatro idiomas, dois corais e até uma gincana mensal, com jogos e brincadeiras). As pessoas voltam porque gostam umas das outras, gostam da bagunça e do contato.

Lux Animae, o coro feminino do ECAI_ Por João Campello
Lux Animae, o coro feminino do ECAI (Foto: João Campello)

E como está essa relação agora, em tempos de quarentena? Você tem recebido suporte (falo financeiro, inclusive) do público?

Como bilhões de terráqueos, estou tendo que correr atrás do prejuízo. Sempre tive vontade de me embrenhar no mundo digital, mas nunca pensei seriamente nisso por absoluta falta de tempo. Você mesmo sabe: manter um blog não é fácil. Uma coisa é fazê-lo por uma semana. Outra coisa é ter programação contínua. Então… como fomos obrigados a fechar, fiquei com 100% do tempo livre para explorar novos meios.

E aí ativei as redes sociais e, principalmente, o YouTube, onde criei um banco de entrevistas (mais de 40 a esta altura) e palestras como História da Música, apreciação de óperas, e agora uma Enciclopédia Musical em português e inglês. Não ganho um centavo com nada disso, mas mantenho minha “base” animada. Além do mais, para minha surpresa absoluta, conquistei muitos seguidores entre roqueiros, adolescentes e gente de todo o Brasil. Me divirto muito com os comentários nos vídeos do YouTube, onde muita gente me acha com cara de “cientista maluco” (risos).

Sobre a parte financeira, fiz o que sempre faço: peço ajuda, na cara dura. Explico a necessidade e peço apoio. Criei uma campanha no Catarse e no site do ECAI, para poder pagar as contas (R$ 8 mil só de IPTU, por exemplo). As pessoas têm ajudado, e com essa ajuda, consigo também manter pelo menos algum pagamento para funcionários e professores de idiomas, que continuam trabalhando virtualmente. Mas não sei por quanto tempo conseguirei segurar a peteca.

“Vejo um futuro próximo com aulas para plateias reduzidas e concertos menores ainda. Todo mundo de máscara. Termômetro e álcool em gel no balcão de entrada. E assim que sair a vacina, vamos todos nos abraçar e comer acarajé, como se nunca o tivéssemos feito.”

Dizem que após a pandemia nada será como antes. Para o ECAI também? Você já tem ideias em mente para quando tudo isso passar?

Meu maior medo é o que vai acontecer com contratos já firmados (com os sócios, por exemplo). Pode ser que muitos não voltem. Pode ser que peçam dinheiro de volta. Não sei como vou fazer. Mas não posso dar chilique ainda, porque essas são questões que povoam a mente de todos os habitantes do planeta. Estou procurando viver um dia de cada vez e não me apavorar.

Provavelmente, vejo um futuro próximo com aulas para plateias reduzidas e concertos menores ainda. Todo mundo de máscara. Termômetro e álcool em gel no balcão de entrada. E assim que sair a vacina, vamos todos nos abraçar e comer acarajé, como se nunca o tivéssemos feito. Sou um otimista nato. Está muito difícil ser otimista no Brasil de hoje, mas me agarro na Arte e nos clientes e amigos. Vai passar. Vai passar. Vai passar.

1 comentário

  1. Parabéns pela entrevista. Desejo que o ECAI , passada a pandemia , continue a sua escalada de sucesso. Aliás se está saindo muito bem com suas lives e com a Enciclopédia.

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