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Christus Nóbrega faz do preconceito matéria de criação

Ofertas cuponsProcuram-se pessoas LGBTQ que já foram alvo de bullying e xingamento por serem como são e queiram compartilhar suas histórias. Quem vai ouvi-las é o artista plástico Christus Nóbrega, que em troca contará uma experiência parecida vivida por ele mesmo. A conversa será gravada. A ideia de Christus é transformar o conjunto de relatos em uma videoinstalação, chamada Sigilo, para sua próxima exposição.

A mostra será o desdobramento da residência artística que o artista paraibano, radicado em Brasília, fez na Canberra Contemporary Art Space (CCAS), Austrália, em 2018. Numa temporada de três meses no país, Christus, além de expor Labirinto (mostra resultante de outra viagem, essa à Paraíba), viajou durante um mês pelo interior australiano.

Refez todo o trajeto de 3 mil quilômetros percorrido pelas personagens do filme Priscila, a Rainha do Deserto, road movie dirigido por Stephan Elliott e lançado em 1994. Na ficção, três drag queens atravessam o deserto australiano para fazer um show num resort da cidade turística de Alice Springs.

Professor do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (Ida/UnB), Christus há anos estuda a viagem como método de pesquisa. Foi à Amazônia, por exemplo, para criar a mostra Expedição Outono (2014); de uma residência artística na China nasceram vários trabalhos, como Fábrica de Pipas, Dicionário Feminino e Empório Celestial (2015-2017).

A convocação de pessoas interessadas em compartilhar histórias é a primeira etapa de Sigilo e será toda realizada por meios virtuais. “Só avançamos para a segunda etapa, presencial, quando acabar o isolamento e for seguro para todos nós”, explica Christus, a quem os interessados devem contatar pelo Facebook.

Em entrevista ao Boníssimo.blog, o artista plástico fala da experiência na Austrália, da importância de se tratar a pauta LGBTQ, detalha o projeto Sigilo e fala de seu processo de criação a partir do que ele chama de “mitodologia da viagem”.

Christus Nobrega 2
Christus Nóbrega em pleno deserto australiano: na trilha de Priscila

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No que consiste o projeto Sigilo?

A maioria das obras da exposição que vai resultar da viagem à Austrália são colaborativas. Parti do princípio de que a ideia de comunidade é forte entre os LGBTs. Estar com o outro e fazer com o outro é fundamental para a sobrevivência da comunidade. Por isso decidi que muitas das obras serão feitas em parceria com outras pessoas da comunidade LGBTQ.

Para a série Sigilo, faço essa convocatória para que as pessoas falem como se deu os processos de bullying, de xingamento, na sua vida, na sua infância, adolescência ou mesmo na maturidade. Tenho gravado os relatos e transformado essa palavra, a escrita do xingamento. Crio um desenho, um grafismo a partir da palavra, reestruturando a posição das letras, ressignificando essa palavra, porque é isso que a gente fez dentro da comunidade LGBTQ com palavras de ofensa, a gente se apropria delas e as usa.

Como o xingamento é uma forma de controle social, de você ter poder sobre o outro, à medida que a gente reutiliza, se apropria, ressignifca a palavra, esse controle se esvai. É neste lugar de ressignificação, de perder o controle, que estou interessado.

E por que Sigilo?

O nome sigilo vem de tradições mágicas, de como são criados os selos e os talismãs mágicos que são feitos a partir da reestruturação gráficas de várias palavras mágicas. Elas vão sendo transformadas até o ponto em que perdem a leitura e viram só um desenho.

Algumas tradições mágicas trabalham com isso, criam seus talismãs de proteção… Estou usando a mesma metodologia. Crio esses desenhos e estou convidando também alguns tatuadores LGBTQ para tatuar sobre a pele da pessoa esses sigilos, esses xingamentos que agora se transformam em talismãs.

Isso pensando também na pele como esse lugar de internalização, remetendo a todas essas questões que podem suscitar a tatuagem: o para sempre, a cicatrização, o domínio do próprio corpo frente à situação, a perspectiva de transformar o veneno em vacina. Daí, vou fotografar e fazer vídeos desse processo para compor uma obra da exposição.

Quando saiu de Brasília para fazer residência na Austrália, você já tinha a ideia de trabalhar a partir dessa viagem pelo trajeto das personagens de Priscila, a Rainha do Deserto?

Sim, quando fui chamado para a residência e a galeria perguntou o que eu gostaria de fazer, foi a primeira coisa em que pensei. Austrália me lembra logo Priscila, um filme que marcou minha geração — eu tinha 18 anos quando passou nos cinemas. Foi impactante, porque pela primeira vez personagens queers eram retratados no cinema mainstream de forma tão digna, mostrando todas as camadas de preconceito.

E com uma metáfora linda que é a da travessia do deserto, falando da vida queer como se fosse essa travessia. Daí pensei: vou refazer o trajeto das personagens do filme e fazer meu projeto a partir dessa pesquisa.

Engraçado é que lá, quando eu dizia que ia fazer a rota de Priscila, as pessoas ficavam muito surpresas e não acreditavam de cara, porque é uma Austrália que os australianos não conhecem, essa Austrália profunda, do deserto, do interior. Eles conhecem as margens do país, onde a maior parte da população vive.

E se espantavam também porque é supercaro viajar para o interior da Austrália, é mais barato ir à Europa. Tem que ser de ônibus, não existe uma logística de transporte eficiente para a maioria das cidades, que são vilas bem pequenas. Então, acabei conhecendo mais cidades desse centro da Austrália do que a maioria dos australianos.

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Christus diante da instalação Fábrica de Pipas, criada a partir de viagem à China

E no paralelo entre a realidade LGBTQ daqui e de lá, são mais significativas as diferenças ou as similaridades? O que temos em comum e o que nos difere?

Fui nessa perspectiva. Nesses projetos de viagem, nesses processos de deslocamento, o que interessa é você se entender através do espelho, seja pela negação ou pela cumplicidade. É quando você se enxerga naquilo ou enxerga sua diferença que você melhor se entende. Então, para mim, a estratégia da viagem tem muito a relação desse duplo, dessa confirmação, dessa diferenciação. Nisso, eu estava realmente procurando entender os paralelos, as semelhanças e diferenças entre Brasil e Austrália.

Somos muito parecidos em muitas coisas e muito diferentes também. Em relação aos LGBTQs, alguns avanços que a gente já conseguiu eles conseguiram muito recentemente e vice-versa. Mas, de forma geral, a Austrália evoluiu muito rápido, deu um salto, em termos de direito.

Hoje a comunidade LGBTQ tem todos os direitos garantidos, existe um respeito social já muito eminente. A Austrália reconhece oficialmente dezenas de identificações de gênero. E uma coisa interessante é que em todo documento oficial você tem três opções de gênero: homem mulher e sem gênero definido.

Agora, a gente fala de duas Austrálias, a da borda e a do deserto, profunda. Quando o diretor do filme escolhe essa entrada no coração do país, é para mostrar exatamente isso: como o conservadorismo está diferente nessas camadas, e há também a referência à comunidade aborígene, que vive em grande parte no deserto.

Engraçado é que no filme, em todas as cidades onde param, as drags têm confronto com a população. O único grupo social que as recebe de maneira digna, que não tem problema e celebra com elas é um grupo aborígene acampado no deserto. É interesante pensar essa metáfora 25 anos atrás.

E a partir de tudo isso que você viu, qual é o foco do trabalho que resultará na exposição?

São dois focos que mais me interessam na pesquisa, entre esses paralelos. Um é sobre o militarismo, a presença de LGBTQs e as políticas de inclusão desses no espaço militar. O segundo é a presença dos transgêneros nas comunidades aborígenes, ou seja, os aborígenes tansgêneros. Aqui no Brasil ainda pouco se fala da perspectiva dos povos originários transgêneros, por isso, estou tentando criar essas relações.

Porque lá eles sofrem exclusões de várias maneiras, a começar por serem aborígenes — até a década de 1970, esses povos não tinham direito a voto, eram considerados nos censos como uma planta, não como cidadãos, não havia esse entendimento de personificação do sujeito. Então, são discriminados por serem aborígenes, por serem negros e por serem trans. Ou seja, têm todas as camadas de preconceito.

Tratar a questão LGBTQ+ neste momento, especificamente, tem uma importância ou um significado especial?

Quando eu pensei nessa questão da Austrália foi especificamente para tratar disso, da dificuldade que ainda é tratar dessa pauta aqui, considerando o quanto avançamos e quanto estão tentando nos fazer retroceder. Então, acho que é urgente falar disso, nas mais diversas frentes: pela perspectiva da educação, da política e da arte — que, acredito, tem uma responsabilidade com isso.

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Na Amazônia, em viagem para o projeto Expedição Outono

De que forma este trabalho dialoga com os anteriores, que nasceram também de deslocamentos — a exemplo de Amazônia e China?

No mestrado e doutorado de Artes da UnB, onde dou aulas, eu e mais três professores criamos uma linha de estudos específica, chamada Deslocamentos e Espacialidades, para estudar as dimensões do espaço como método de pesquisa em arte. Particularmente, estudo a viagem como método de pesquisa, a ideia de deslocamento através da viagem.

Já venho trabalhando com isso já alguns anos e realizando pequenas viagens. E tem a viagem também na perspectiva da residência artística. Essas que você citou são algumas delas, mas todos os trabalhos têm essa perspectiva do viajar.

Só que terminei criando uma regra do deslocamento que eu chamo de de “mitodologia” da viagem, um método de viajar sendo guiado por um mito, a estética de um mito. Então elegi três mitos: o do filho pródigo, o do Exu e do carro, aquela carta do tarô. Cada viagem é guiada por um desses mitos, que é o tipo de ação, de estética que eu vou realizar.

Quando e de que forma esses mitos guiam o trabalho?

As viagens que são, digamos, guiadas por Exu são viagens de negociação, em que acontece algum tipo de escambo, de tradução, pensando no Exu como essa entidade que negocia entre mundos, que abre e fecha caminhos, esse grande tradutor. Então, são viagens que precisam ter algum tipo de tradução simbólica muito intensa, no caso da Austrália ou da China, por exemplo.

Outras são guiadas pelo filho pródigo, aquele do relato biblico. O cristianismo sempre vende essa parábola como uma história de arrependimento, do filho que volta pra casa do pai arrependido depois de gastar toda a fortuna. Só que faço uma leitura diferente: o filho pródigo, na verdade, ganha aquela festa que o pai oferece não porque ele se arrependeu e voltou, mas porque saiu — já o filho que está com ele nunca teve uma festa.

É a viagem, o atrevimento, a conquista, o conhecer novos territórios, o conhecimento que traz a celebração. Então, todas essas viagens que trazem a perspectiva de celebrar o meu retorno, em que volto para a Paraíba, uso minha memória, história pessoal, e executo projetos como Labirinto e Per Capita, são guiadas por esse mito do filho pródigo.

Por fim, o carro é uma carta de conquista, é o cara que está em cima do carro que vai para ganhar, conquistar algo. Esse mito me guia em projetos como o que me levou à Amazônia, por exemplo. Viagens extrativistas, de coleta, viagens necessariamente relacionais, no sentido de não ter uma troca equilibrada. Enfim, é mais ou menos assim que eu organizo meus métodos de viagem.

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