A vasta obra e a vida incrível de Durval Pereira

O pintor paulistano Durval Pereira (1918-1984) tem uma obra vasta e uma história pessoal digna de filme. Desta quarta-feira (3/10) até 2 de dezembro, será possível entrar em contato com o universo do artista no Museu dos Correios (Setor Comercial Sul).

EvinoDurante esse período, fica aberta naquele espaço a mostra Durval Pereira — Impressões Brasileiras — 100 Anos. A exposição reúne 220 telas de Pereira que fazem parte do acervo particular do colecionador recifense Hebron Costa Cruz de Oliveira.

Com curadoria do pesquisador e arquiteto baiano Lut Cerqueira, Impressões Brasileiras, além de trazer telas que marcam diversas fases e temáticas do artista, apresenta um pouco de sua trajetória em tours virtuais e interativas, concebidas em realidade 3D.

Filho de imigrantes portugueses, Durval Pereira entrou em contato com as artes na adolescência, quando trabalhou como entregador numa loja de molduras. Foi aí que descobriu os impressionistas europeus que estavam em voga na época.

Isso explica, de certa forma, o fato de ele ser considerado um pintor impressionista ainda nos anos 1940, quando a arte modernista dominava a cena artística brasileira. Um impressionismo brejeiro, onde proliferam marinhas, casarios coloniais e paisagens do interior do Brasil.

Durval Pereira/Divulgação

Lut Cerqueira conta que, os primeiros quadros, ele divulgava colocando-os nos quadros de luz de sua rua. “Durval Pereira não pintava por diletantismo, ele sempre quis enriquecer com sua obra. E conseguiu”, observa Cerqueira.

As paisagens brasileiras do pintor fizeram sucesso sobretudo no exterior, atraindo admiradores como a rainha Sílvia, da Suécia, que vinha ao Brasil especialmente para adquirir quadros de Durval Pereira.

À margem da intelectualidade criativa paulistana, Pereira produzia arte para consumo. Era capaz de pintar até três quadros ao mesmo tempo, e de criar de acordo com a vontade do cliente. “Se o cliente que casa, faço casa; se quer flor, faço flor…”, dizia.

Durval Pereira/Divulgação

“Nos anos 1940, o Brasil estava na moda, com os filmes da Disney ambientados no Rio de Janeiro, Carmem Miranda,  Ary Barroso com Aquarela do Brasil. E o interesse era por esse Brasil da paisagem, e não modernista. Durval Pereira se favoreceu disso”, conta o curador.

AramisO interesse por casario colonial levou Pereira a se tornar um viajante inveterado. Percorreu assim o interior do Brasil e descobriu mais do que o casario que buscava. Pintava tanto in loco quanto por meio de fotos que fazia, fundindo o registro e a imaginação.

Tinha certo desprezo pela abstração. Uma de suas histórias mais curiosas diz respeito aos desafios que costumava impor ao colega nipo-brasileiro Manabu Mabe (1924-1997). Ela pintaria as abstrações de Mabe e esse pintaria seus casarios.

De acordo com Lut Cerqueira, um dos orgulhos de Durval Pereira era conseguir provar ser capaz de criar igual a Manabu Mabe, enquanto o contrário não acontecia. “Ele dizia que podia pintar abstrações até com os pés, e há quem diga que o viu fazer isso”.

Durval Pereira/Divulgação

Fechando a incrível história do filho de imigrantes pobre que repercutiu no mundo com sua arte “fora de época”, há o episódio da morte de Durval Pereira. Saindo do hospital, onde se recuperava de problemas do coração, recebeu uma notícia.

O filho anunciou que ele ganhara o Grand Prix La Madonina di Milano, pelo conjunto de sua obra. Um feito até então inédito entre artistas brasileiros. O coração de Durval Pereira não resistiu à notícia. Ele só teve tempo de dizer: “Eu sabia que conseguiria”.

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Durval Pereira — Impressões Brasileiras — 100 Anos
De 3/10 a 2/12, terça a sexta, das 10h às 19h; sábados e domingos, das 12h às 18h, no Museu dos Correios (Setor Comercial Sul, Quadra 4, Bloco A, Edifício Apollo). Entrada franca.

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