Uma visita ao Louvre guiada por Beyoncé e Jay-Z

Por Paulo Lannes
Colaborador do Boníssimo

O clipe Apeshit, lançado na última semana pelo The Carters, projeto de Beyoncé e Jay-Z, deu o que falar. A dupla, que produziu um álbum junto pela primeira vez, usa no vídeo uma série de provocações acerca da exploração do povo negro pelo mundo Ocidental.

No hit, lançado no sábado (16/6), ambos os artistas se colocaram de costas às obras de arte do Museu do Louvre, como se considerassem as peças irrelevantes e fossem eles mesmos obras-primas (e quem diria o contrário, não é mesmo?).

Beyoncé e Jay-Z gravaram o vídeo numa única madrugada. Contaram com a coreografia sensual e provocativa do dançarino belga Sidi Larbi Cherkaoui e de dançarinos nus para realçar o teor da música, que inclui trechos vibrantes.

Num deles dizem “put some respect on my check or pay me in equity” (“Dê um pouco de respeito ao meu dinheiro ou me pague em equidade”). Em outro, “I can’t believe we made it” (“Não acredito que conseguimos”).

Para além dessas questões abordadas pelo The Carters, o clipe trouxe à tona algumas das obras mais importantes do Louvre – que merecem, sim, uma visita e alguns momentos de contemplação. Vamos apontar algumas delas:

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Mona Lisa, de Leonardo da Vinci
Dispensa apresentação: é a pintura mais conhecida do mundo e (provavelmente) retrata Lisa Gherardini, mulher do comerciante de seda Francesco del Giocondo. Mas há dois aspectos curiosos que valem ser comentados. O primeiro diz respeito à própria peça, de apenas 77cm x 53cm: Da Vinci demorou 10 anos para pintá-la, começando em 1503 – os portugueses tinham desembarcado no Brasil apenas três anos antes – e terminando em 1513.

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A Consagração de Napoleão, de Jacques-Louis David
Pintada em 1803 e de gigantescas proporções (6m x 10m), trata-se, talvez, da obra de arte mais emblemática da França. Diferentemente do que muitos pensam, a cena não mostra Napoleão sendo coroado Imperador da França, mas sim ele coroando sua mulher, Joséphine. Nesse detalhe está a questão mais polêmica do momento retratado pelo quadro de David: até então, somente o representante da Igreja poderia coroar um rei ou uma rainha. Porém, ele resolveu se coroar e coroar a esposa — deixando o Papa bastante irritado, feições estas também imortalizadas pelo pintor nesta obra.

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Vênus de Milo, de Alexandre de Antioquia
A estátua de 2m de altura representa Afrodite (o nome Vênus viria apenas com a vitória de Roma sobre a Grécia), a deusa do amor na mitologia grega. Esculpida no século 2 a.C., foi redescoberta em 1820 na Ilha de Milo (pertencente ao Império Otomano até então) com ajuda de um camponês, que a desenterrou.

Junto a esse camponês estava um cadete naval francês aficionado por arqueologia que, reconhecendo logo a importância da obra (àquele momento dividida em três pedaços), avisou ao cônsul do país europeu da descoberta.

Assim, antes que os oficiais turcos soubessem, a enviou para a França – onde foi adicionada à coleção do Louvre. A estátua se tornou uma das estrelas do museu. Não por menos: a mulher esculpida parece mover-se diante dos olhos do espectador. A ausência de seus braços ainda é um mistério, mas dizem que uma das mãos levava uma maçã (o famoso “pomo da discórdia”).

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Vitória de Samotrácia, de um artista anônimo de Rodes (Grécia)
Esculpida na época da Vênus de Milo, foi encontrada em 1983 nas ruínas do Santuário dos Grandes Deuses em Samotrácia (ilha grega no mar Egeu). E, assim como a Vênus, foi descoberta por um francês que a enviou rapidamente ao Louvre. Anos depois, foi encontrada a representação de uma proa de navio feita em mármore, que serviu (e voltou a servir) de pedestal para a estátua. Assim, compreendeu-se que a obra foi construída em homenagem ao rei Demétrio I da Macedônia, que havia acabado de obter uma vitória naval no Chipre.

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Grande Esfinge de Tânis
Imponente, com cerca de 5m de largura e 2m de altura, a esfinge de Tânis é a maior monolítica (ou seja, feita em um único bloco de granito) localizada fora do Egito. Não foi possível identificar qual o faraó está representado na estátua, mas se sabe que foi construída no Antigo Império, entre 2686 e 2160 a.C. A esfinge foi desenterrada em Tânis (Egito) em 1825 e, como era de costume, levada à França escondida dos oficiais do país.

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A Balsa da Medusa, de Theodore Gericault
Trata-se de uma das principais pinturas do Romantismo francês. Bastante dramática, a tela mostra mortos de corpos esculturais e vivos entre o desespero e a esperança em meio a destroços e um mar agitado.

O que poucos sabem é que a cena é inspirada numa história real. Em 1816, uma fragata francesa nomeada de Medusa naufragou a caminho de Senegal. Algumas das 150 pessoas a bordo sobreviveram e vagaram no oceano por dias em uma balsa.

Pintada apenas três anos após o terrível naufrágio, a pintura tem dimensões históricas (5m x 7m). Um detalhe macabro: para desenhar os mortos na tela, Gericault estudou cadáveres reais por dias a fio.

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Madame Recamier, de Jacques-Louis David
Outro quadro de David representado no clipe de Beyoncé. Nele, vemos a socialite parisiente Juliette Récamier reclinada em um sofá que posteriormente seria batizado de Récamier em sua homenagem.

Pintada em 1800, a tela mostra a aristocrata no auge da sua vida. Filha de um conselheiro do rei, ela promovia salões de arte e rodas de leitura em casa. Porém, a queda da monarquia fez com que perdesse boa parte da fortuna.

Perdeu também seu lar: Juliette foi exilada da França e obrigada a viver em Nápoles (Itália) até o fim do império de Napoleão. De volta à cidade natal, já não tinha mais o dinheiro e a influência do passado, vivendo reclusa em um convento parisiense até morrer.

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