A história das gravuras através dos séculos

Por Paulo Lannes
Colaborador do Boníssimo

A exposição Imagens Impressas: um Percurso Histórico pelas Gravuras da Coleção Itaú Cultural“, em cartaz no Museu Nacional da República (MUN) até 22 de julho, poderia muito bem ser a coleção principal de algum museu internacional sobre gravuras.

As 150 obras apresentadas na mostra detalham a trajetória da gravura, indo do século 15 ao 20 a partir de trabalhos elaborados por grandes nomes da arte europeia.

Estão lá nomes como Albrecht Dürer, Rembrandt van Rijn, Eugène Delacroix, Honoré Daumier, Francisco de Goya, Gustave Doré, Édouard Manet, Henri de Toulouse-Lautrec e Edvard Munch.

Imagens Impressas/Satan, with Head..., de Francesco Bartolozzi
Satan, with Head…, de Francesco Bartolozzi

Para além da apresentação desses raros trabalhos, a exposição é feliz em detalhar a evolução da gravura por meio de seus processos técnicos, que ajudam os visitantes a compreender melhor a construção de cada uma das obras.

Assim, além de separar as peças por séculos, são evidenciados os principais temas retratados em cada período e apresentados breves explicativos sobre cada uma das técnicas inventadas nos momentos em questão.

Estive na exposição com o objetivo de selecionar algumas das obras mais interessantes da mostra e apresentá-las aqui, com uma breve explicação sobre os pontos mais importantes a serem verificados em cada um dos módulos. Vamos lá:

imagens impressas schongauer
Cristo Carregando Cruz, de Martin Schongauer

Século 15
Albrecht Dürer e Martin Schongauer foram responsáveis por criar gravações com traços tão poderosos que dispensaram o uso da cor, tão comum na pintura e tão difícil de ser reproduzida na gravura.

Estava em vigor a xilogravura, uma das formas mais antigas de impressão (que remonta à tradição oriental de produção de livros ilustrados). No ocidente, foi amplamente utilizado em Bíblias e outros textos religiosos. Há duas páginas desenhadas por Dürer na mostra.

Além disso, tanto Dürer quanto Schongauer precederam o Renascimento Italiano ao reproduzir com exatidão o equilíbrio das formas (característica exaltada pelo Renascimento) e ao apresentar multidões numa única obra com requinte de detalhes.

Em Cristo Carregando Cruz (foto acima), de Martin Schongauer, esses traços são perceptíveis. Jesus, apresentado no centro da tela, possui proporções harmônicas que valorizam o drama da ação retratada. E os detalhes dessa obra são tantos que é possível ver até o c* do cavalo desenhado à esquerda da imagem.

Imagens Impressas/Cum Puero Ismaele, de Pieter de Jode
Cum Puero Ismaele, de Pieter de Jode

Século 16
Neste momento ainda se sustenta a produção de obras voltadas à vida religiosa. Com o Renascimento em pleno vigor (e o Maneirismo começando a dar as caras), as figuras se tornam ainda mais monumentais e as poses lembram estátuas gregas. É o caso de Cum Puero Ismaele (foto acima), de Pieter de Jode.

Há drama em cena, mas nada que possa tornar o belo em algo feio, grotesco. Ou seja, aqui, o ode à beleza é o principal objetivo da gravura. Além da produção religiosa encontra-se histórias da mitologia greco-romanda e cenas do cotidiano (da elite, é claro).

Além disso, os trabalhos deixaram de ser feitos em madeira (comum à xilogravura) para serem feitos em metal, valendo-se de um instrumento chamado ponta-seca: ele permite criar sulcos na superfície que possibilitam os artistas de criarem traços personalizados na chapa de metal.

Imagens Impressas/Autorretrato, de Rembrandt Van Rijn, e Cena de Taberna, de Andrian von Ostade
Autorretrato, de Rembrandt Van Rijn, e Cena de Taberna, de Andrian von Ostade

Século 17
A invenção da água-forte, que traz maior espontaneidade à gravura, aumentando as possibilidades de expressão, permite que a arte se popularize e seja usado em mais situações diferentes.

Daí, Rembrandt Van Rijn usar a técnica para realizar seus autorretratos (acima, à esq.) e Andrian von Ostade traz à tona situações comuns à sociedade à época, como vemos em Cena de Taberna (acima, à dir.).

A gravura também passa a ser utilizada para representar paisagens (do campo e da cidade), belos exemplares arquitetônicos (palácios e ruínas arqueológicas recém-descobertas), costumes (moda da época, principalmente) e retratos de personagens importantes do período (corte real, clérigos, militares e aristocratas).

Imagens Impressas/Veduta del Tempio della Sibila in Tivole, de Giovanni-Batista Piranesi.
Veduta del Tempio della Sibila in Tivole, de Giovanni-Batista Piranesi.

Século 18
Com a influência do Romantismo, acentua-se a busca por cenários repletos de ruínas arqueológicas e cenas em que o homem pequeno aparece em meio à natureza. Há também figuras alegóricas, da mitologia e do catolicismo, como o próprio Satã.

Essas questões podem ser percebidas claramente nas gravuras Satan, with Head..., de Francesco Bartolozzi (foto acima, parte superior) e Veduta del Tempio della Sibila in Tivole, de Giovanni-Batista Piranesi.

É também o tempo da água-tinta, técnica que possibilita manchas com variações tonais mais intensas, resultando em imagens com sutileza e delicadeza bastante incomuns até então. As gravuras também ganham a possibilidade de serem coloridas.

Imagens Impressas/Impressions et Compressions de Voyage, da série Le Chemin de Fer, de Honoré Daumier
Impressions et Compressions de Voyage, da série Le Chemin de Fer, de Honoré Daumier

Século 19
Eis uma época de muitas mudanças: a gravura deixa de ser apenas um tipo de produção artística e passa a se tornar relevante na imprensa ilustrada. Daí, as charges ácidas de Honoré Daumier, que fazia grandes denúncias dos problemas sociais à sua volta.

Na mostra Imagens Impressas, são apresentadas 13 obras do artista, entre elas a coleção Le Chemin de Fer (uma delas, Impressions et Compressions de Voyage, na foto acima).

Completamente popularizada, a gravura passa a fazer parte do processo de produção artística dos principais artistas do período. Além disso, surge a litografia, técnica em que a é feita uma impressão do desenho no papel a partir de uma placa de cobre numa superfície de pedra.

Imagens Impressas/Le Forgeron, de Eugène Delacroix; Lola de Valence, de Manet,e Ultime Ballade, de Toulouse Lautrec
Le Forgeron, de Delacroix; Lola de Valence, de Manet, e Ultime Ballade, de Toulouse-Lautrec

Para além do jornalismo de Daumier, vemos, por exemplo, a figura mitológica Le Forgeron, de Eugène Delacroix, o retrato Lola de Valence, de Edouard Manet, o quase abstrato Ultime Ballade, de Henri de Toulouse-Lautrec (todos acima).

E também a ilustração La Fiancée d’Abydos, feita por Theodore Gericault para o livro de Lord Byron, a inesperada representação gráfica do retrato de Sir Henry Hawkins, de William Nicholson, e a irônica denúncia social de Bien lo Sé Esta, de Francisco de Goya (todos abaixo)

Trata-se do principal módulo da exposição, tanto pela extensão como por sua diversidade de produção e pela fama dos artistas, consagrados na arte europeia e adorado nos principais museus do mundo. É realmente extasiante.

Imagens Impressas/La Fiancée d'Abydos, de Theodore Gericault, Sir Henry Hawkins, de William Nicholson, e Bien lo Sé Esta, de Goya
La Fiancée d’Abydos, de Gericault, Sir Henry Hawkins, de Nicholson, e Bien lo Sé Esta, de Goya

Século 20
Este é o menor ambiente da mostra, com apenas uma obra apresentada: The Grils on the Bridge“, de Edvard Munch. Mas não se engane pela quantidade, pois se trata de uma obra- prima, adquirida recentemente pelo Itaú Cultural.

Exposta pela primeira vez ao público, a peça evidencia uma das principais características do precursor do expressionismo alemão: a de deformar a paisagem em prol dos sentimentos dos personagens ali retratados.

imagens impressas munch

Nesta gravura, isso é apresentado mesmo sem o uso de cores, evidenciando a maestria do artista em lidar com temas como esse.

E, veja só, o cenário apresentado nesta gravura é praticamente o mesmo de “O Grito”, a tela mais conhecida de Munch.  Ao menos a ponte é a mesma, apresentada sob o mesmo ângulo. Joia demais, né?

OBS: Aqui vai uma dica de ouro: leve uma lupa, pois alguns trabalhos são tão detalhados que valem a pena ver bem de pertinho.

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