5 motivos para visitar a exposição do Basquiat

Por Paulo Lannes (*)
Colaborador do Boníssimo

A mostra Basquiat — As Obras da Coleção Mugrabi, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) da capital até 1º de julho, tem provocado alguma movimentação no circuito de exposições nacional.

Enquanto muitos admiram a retrospectiva do artista estadunidense, outros afirmam que falta consistência na sua produção, sendo mero produto do mercado da arte – gerando reações apaixonadas, que vão da adoração ao ódio.

Tal embate já serve de motivo para visitar a mostra. É preciso reconhecer que se um artista que brilhou nos anos 1980 continua a provocar polêmica até os dias de hoje tenha algo de interessante.

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Além do mais, em tempos que exposições são canceladas por questões éticas, soa bastante necessária a possibilidade de uma discussão estética na arte. E é esta possibilidade que a mostra Basquiat nos oferece. Dito isto, selecionamos cinco motivos para visitar ao menos uma vez a retrospectiva desse artista. Confira:

1. Grande nome do Neoexpressionismo
O movimento artístico neoexpressionista surgiu na década de 1970 com a queda da abstração, que já vinha sofrendo desde a década anterior, e o retorno da pintura, constantemente marcada por traços violentos e grosseiros.

Basquiat é um dos grandes nomes desse período, que também contou com a participação de artistas como Julian Schnabel, George Baselitz e Steven Campbell. Para a crítica, os neoexpressionistas foram responsáveis por apresentar “uma nova alma na pintura”.

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2. Arte marginal
Mais do que se envolver com um movimento artístico, Basquiat era também preocupado com as questões que envolviam a arte urbana e a produção negra de Nova York (EUA). Era ao povo negro que Basquiat dedicava suas obras de arte.

Ele mantinha contato com grafiteiros e fazia parte da comunidade alternativa nova-iorquina, conhecendo a fundo a rotina de suas ruas, metrôs e casas noturnas. Não à toa, chegou a montar uma banda (junto com o músico e ator Vicent Gallo).

Basquiat também concebeu o projeto SAMO, em que realizava pinturas com spray nos prédios de Manhattan (centro cultural e financeiro de Nova York).

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3. Ele não está só
Apesar de a internet ainda não ser popularizada nos anos 1980, Basquiat já vivia a “era da informação”. Os televisores chegaram na maioria das casas, jornais e revistas eram bastante populares e o universo do marketing estava em seu auge.

Assim, o artista tentou condensar em seus trabalhos a rapidez das informações, unindo textos e imagens. Utilizando elementos do mercado consumidor, criou uma linguagem que pudesse atrair o mercado da arte e se inserir nele.

Com a fama, passou a ser reconhecido por outros grandes nomes da arte do século 20. Andy Warhol, por exemplo, tornou-se um grande amigo de Basquiat, realizando diversos trabalhos em conjunto. Algumas dessas obras – em grandes dimensões – estão na mostra do CCBB.

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4. Coleção única
Morto aos 27 anos, Basquiat deixou toda sua produção concentrada em uma década (ele começou criar com apenas 17 anos). Nesse curto período, pôde conhecer um pouco o gosto do sucesso, mas não a tempo de ser reconhecido por grandes instituições culturais.

Por isso, boa parte de seu acervo foi adquirido por colecionadores privados, sendo difícilmente encontrado até mesmo em museus americanos. É o caso das 80 peças da mostra, pertencentes ao colecionador israelense Jose Mugrabi (foto acima).

Um detalhe: Mugrabi não costuma ceder suas peças para exposições temporárias, deixando-as guardadas em seus depósitos nos EUA e na Suíça. Inclusive, a exposição, que passa por diversas cidades brasileiras, só ocorreu mediante pagamento de US$ 1,5 milhão (R$ 5 milhões). Uma bagatela, não?

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5. Remanescente da crise
Ainda que o Brasil tenha recebido inúmeras exposições internacionais ao longo desta década, o país não conseguiu se firmar como polo cultural relevante no mundo. E essa condição tem piorado com a crise financeira – que vem reduzindo o investimento em projetos culturais desde 2015.

Por isso, tem sido cada vez mais incomum a chegada de grandes retrospectivas de artistas estrangeiros por aqui, sendo este o caso da mostra sobre Basquiat, que traz não só uma boa diversidade de obras artísticas como também fotos, ambientes interativos e bons textos sobre a história e a produção do artista.

É bom aproveitar enquanto podemos.

( * ) Paulo Lannes formou-se em Jornalismo na UnB, participou do trainee da Editora Abril e atuou nas redações de Veja Brasília e Metrópoles, ao mesmo tempo em que fazia mestrado em Literatura, também na UnB. Agora, está com doutorado em andamento pela Universidade do Porto, de Portugal.

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