“Novas Famílias”: Marina traduz em música o agora

Por Rosualdo Rodrigues
Editor do Boníssimo

Certa vez Marina Lima disse numa entrevista (ou talvez no texto de encarte de algum de de seus discos) que não tem raízes, tem antenas. Provavelmente, foram essas antenas que garantiram a ela vencer muitos dos percalços da carreira.

Marina surgiu numa leva de “novas cantoras de MPB”, no fim dos anos 1970. Dessa turma (que incluía nomes como Zizzi Possi e Ângela Ro Ro), foi ela quem melhor se adaptou ao cenário dominado pelo rock nos anos 1980.

Isso porque sua música “antenada” sempre teve livre e natural trânsito entre gêneros, estilos e rótulos. Cantar rock não era questão de seguir a manada, era (e é) parte de seu DNA musical tanto quanto a MPB.

Mais tarde, quando a cantora teve problemas na voz, em decorrência de dramas familiares, prosseguiu seu trabalho com uma coragem rara. Mesmo com a deficiência vocal, conseguiu fazer discos mais instigantes do que muitas colegas de garganta sã.

São dessa fase, por exemplo, “Setembro” (2001) e “Lá nos Primórdios” (2006). Lá estavam as antenas aguçadas de Marina Lima funcionando, como estão agora em “Novas Famílias”, o álbum que ela acaba de lançar.

Aos 62 anos, a artista traz um disco sintonizado com o agora, sem ignorar, é claro, que o presente não existiria sem o passado. “Novas Famílias” transpira o momento que vivemos em versos, rimas e ritmos.

Novas Familias Marina Lima

Há protesto e indignação, mas há também esperança e amor. Em “Novas Famílias”, que abre o disco,  o perigo é iluminado por um otimismo nutrido pelos sinais de afeto: “Essas novas famílias/ De terras molhadas com amor/ Minando qualquer ditador”.

O funk “Só os Coxinhas”, que saiu antes como single, é uma provocação arriscada em tempos polarizados. E vale mais por isso, pela coragem da provocação, do que como canção mesmo. De qualquer forma, faz todo sentido no contexto do álbum.

Antenada no conteúdo e na forma, Mariana passa ainda pelo samba (“Climática”), pelo tecnobrega (“É Sexy, É Gostoso”) e recupera um hit do passado, “Pra Começar”, que soa atual, mas agora chama à conciliação: “e o mundo pode ser seu, pode ser meu, meu e seu”.

Tem ainda um eletrônico pesado, “Mãe Gentil”, duo com Letícia Novaes, a Letrux. A faixa está traduzida em foto na capa do álbum, com Marina usando uma faixa no rosto, ao modo dos black blocks.

É uma das melhores músicas de “Novas Famílias”, um equivalente a “Brasil”, do Cazuza, para os dias de hoje: “Quebra pau/ Tudo errado nesse paisinho/ Pá de cal/ Numa gente escrota e mesquinha/ Que nos faz de bobo/ Pra que enganar o povo?”. A cara do presente.

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