A música brasileira está melhor do que há 30 anos

Por Rosualdo Rodrigues
Editor do Boníssimo

Vivemos um momento de nostalgia. Há quem sinta saudade da ditadura militar, há quem sinta saudade da era PT, há quem sinta falta, tão somente, de um tempo em que se podia andar na rua à noite ou namorar no carro sem correr o risco de morrer por isso.

A música não escapa desse clima saudosista. Dê uma olhada nos vídeos de antigos sucessos postados no YouTube e leia os comentários. “Isso sim é que era música”, “a música brasileira já não é a mesma” e outros suspiros do tipo são comuns.

O que devemos entender por música brasileira? Imagine que não seja somente o que está tocando nas paradas. Pense no que você tem ouvido além daquilo que lhe é entregue de bandeja pelo rádio, TV ou outra mídia.

Mais que isso, pense em música brasileira como um acervo acumulado ao longo de décadas, ao qual se junta o que está sendo produzido no momento. E agora, por mais que menos gente saiba, nem tudo em nossa música é tiro, porrada e bomba.

Dessa perspectiva (de efeito acumulativo), a música brasileira, de fato, está melhor agora do que estava 30 anos atrás, porque se tornou mais rica, mais diversificada — e, ainda hoje, poucos países têm uma produção musical tão plural quanto o Brasil.

Praguejar contra Anitta, Safadão e congêneres, ignorando tudo que temos para ouvir revela, no mínimo, desconhecimento completo de história da nossa música e falta de curiosidade para descobrir por conta própria o que afinal está sendo feito de bom.

A música brasileira não está, ela é. Luiz Gonzaga e Tom Jobim estão ao alcance de todos nas plataformas digitais, grandes compositores — como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Tom Zé… — continuam vivos e produtivos…

A eles se juntam as criações de artistas refinados como Chico César (já ouviu o disco mais recente dele, “Estado de Poesia”? É maravilhoso), Marcelo Jeneci, Céu (“Tropix” é um dos melhores discos brasileiros produzidos neste século), Tulipa Ruiz, Letrux, Márcia Castro…

A eles se juntam Alice Caymmi, Seu Jorge, Luana Carvalho — a filha de Beth Carvalho, que lançou no ano passado dois discos incrivelmente lindos, “Branco” e “Sul”) –, a turma de Liniker, Johnny Hooker e Linn da Quebrada; a instigante banda Francisco, El Hombre…

E a eles se juntam também Anitta e Safadão; Marília Mendonça, Luan Santtana e as moças e rapazes do sertanejo. Como se juntaram tempos atrás Odair José, José Augsuto, Sullivan & Massadas, duplas sertanejas dos anos 1990, o povo do pagode, do axé e do samba.

É quando olhamos o panorama completo que vemos a beleza que “É” a música brasileira. É quando rompemos os limites de tempo, sem separar ontem e hoje, que aparecem coisas belíssimas como a gravação de Mahmundi para “Tarde em Itapuã”, do Vinícius.

Essa liberdade de não diferenciar ontem nem hoje, focar apenas na boa música, é que permite trabalhos como o do produtor Thiago Marques Luiz, do DJ e produtor Zé Pedro (em seu selo Joia Moderna) e de Marcelo Fróes (com o seu Discobertas), que tiram do passado incríveis “novidades”

Imagine, portanto, a música brasileira como um grande lago. Na superfície há muito lixo, mas quem ousa mergulhar mais fundo encontra águas cristalinas. E atualmente, plataformas como Spotify e Deezer facilitam demais esse mergulho. Contenta-se com a superfície quem quer.

No topo desta página, a obra “Musicando”, de Carybé.

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