Fernanda Torres retorna ao romance afiadíssima

Fernanda Torres superou de saída aquela barreira de desconfiança usualmente erguida contra famosos (de outras áreas artísticas além da literatura) que se arriscam como romancistas.

Lançado em 2013, “Fim” deixou evidente que não se tratava de uma escritora de ocasião. “A Glória e Seu Cortejo de Horrores”, segundo romance de Fernanda, lançado agora, a inclui de vez no cenário da nova e boa literatura brasileira.

Em “A Glória…”, a escritora narra cinco décadas na vida de um ator brasileiro, dos anos 1960 até hoje, da ascensão à queda. Mas nos entrega, mais do que uma história pessoal, uma reflexão sobre os rumos tomados pela sociedade brasileira.

A Gloria e Seu Coretejo

Mario Cardoso, o protagonista, experimenta o teatro engajado, o sucesso como ator de novelas, o reconhecimento no teatro, transita entre burgueses e militantes esquerdistas, mas acaba sendo devorado pelos próprios valores e pelo deslumbramento.

O leitor certamente vai lembrar de uma dezena de personagens reais para cada personagem criado pela autora. O universo ficcional de “A Glória…” é tão real, tão palpável, que por vezes parece uma obra biográfica.

No fim das contas, pode até ser visto, sim, como uma biografia. A biografia de um tempo e lugar. É um raio X de nosso país recente feito dos bastidores e coxias. Do cinema novo e o teatro militante aos evangélicos, leis de incentivo e criminalização da arte.

O segundo romance de Fernanda guarda em comum com o primeiro a intimidade da autora com o cenário do Rio de Janeiro, a preferência por dar voz a personagens masculinos e o fascínio pelos efeitos do tempo sobre os seres humanos.

Guarda também a fluência narrativa que, certamente, tem muito a ver com o fato de a Fernanda, em sua atividade de atriz, estar habituada às histórias contadas oralmente. Assim como em “Fim”, “A Glória…” é devorado sem esforço pelo leitor.

Mas isso não significa, no entanto, uma digestão fácil. A leveza na escrita de Fernanda Torres não descarta a profundidade, o incômodo das questões que nos tornam, humanos, seres tão fascinantes quanto abjetos.

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“A Glória e Seu Cortejo de Horrores”
De Fernanda Torres. Companhia das Letras, 216 páginas, 29,90 (Livraria Cultura).

 

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