Ficção científica: cada vez mais perto da realidade

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O jornal O Globo publicou, semana passada, matéria sobre uma palestra do físico Stephen Hawking em que ele afirma que a humanidade será extinta em 30 anos. A única forma de evitar isso, ele diz, seria criar colônias em Marte e na Lua.

“Não é ficção científica”, assegura o cientista. Segundo Hawking, a Terra não terá condições de sustentar a população do Planeta — em projeções da ONU, 8,5 mil milhões de pessoas em 2030 e 9,7 mil milhões em 2050.

Para alarmar ainda mais a plateia, a palestra de Stephen Hawking poderia, muito bem, ser seguida pela exibição de “Onde Está Segunda”, filme produzido e em cartaz na Netflix, com Noomi Rapace, Willem Dafoe e Gleen Close no elenco.

A trama de ficção científica é assustadora, mas ainda é mais otimista que as afirmações de Hawking, já que se passa em 2073 — ou seja, daqui a 50 anos. A essa altura o aumento desproporcional da população já atingiu o caos.

A necessidade de se produzir alimentos geneticamente modificados para o consumo de tanta gente teve um efeito colateral, o nascimento cada vez maior de gêmeos. Isso leva o governo a uma ação radical: onde só filhos únicos são permitidos.

A questão dos alimentos geneticamente modificados é abordada em outra produção da Netflix, “Okja”, um olhar sobre o futuro tão assustador quanto o que é lançado em “Onde Está Segunda”.

Mais complexa é “O Conto da Aia”, série baseada no livro homônimo da escritora canadense Margaret Atwood. Na história, os EUA estão dominados pela facção fundamentalista Filhos de Jacob.

Ali, mulheres férteis são mantidas como escravas sexuais a serviço de casais inférteis e homossexuais são condenados à morte como “traidores de gênero”. A trama assombrosa mistura temas polêmicos relacionados a questões de gênero, religiosas e políticas.

Essas três produções são exemplos de como a ficção científica que se vê na tevê e no cinema nestas duas primeiras décadas do século 21 está cada vez mais próxima da realidade.

Os criadores se amparam em possibilidades reais para mostrar um futuro cada vez mais sombrio. Mas não foi a ficção que mudou de lugar. A realidade é que foi de encontro a ela.

Afinal, no século 20, a literatura do gênero já construía histórias de fundo filosófico, político e antropológico com raiz no real. Porém, as ficções de autores como Philip K. Dick (1928-1982), Isaac Asimov (1920-1992), George Orwell (1903-1950) e Aldous Huxley (1894-1963) ainda pareciam tratar de um futuro muito distante.

Ainda mais distante era o universo de “Jornada nas Estrelas”, “Guerra nas Estrelas”, “Perdidos no Espaço” e “Túnel do Tempo”, franquias e séries que formaram a ideia que a maioria de nós tem do que é ficção científica. Isso nos anos 1970 e 1980.

Diante de criações recentes, como a série “Black Mirror”, também da Netflix, que explora o mundo da tecnologia em histórias alarmantes, produções como as citadas acima soam até ingênuas, mero exercício de fantasia e aventura.

Hoje, o gênero está mais alinhado com o terror. A imaginação dos roteiristas se alimenta de tópicos como governos repressivos e totalitários, escassez de alimentos, cidades superpovoadas, relações virtuais — como a mostrada em “Ela”, de Spike Jonze, por exemplo… E o que assusta é que nada disso é tão ficção assim.

Sobre o tema, leia o artigo “A nova era dourada das distopias”, da escritora e jornalista Aloma Rodríguez, publicado no El País.

Leia também: “A vida real está parecida demais com o enredo de ‘O Conto da Aia'”, no Huffpost.

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