Chico, Tribalistas e a imposição do novo

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Por coincidência, os novos álbuns de Chico Buarque e Tribalistas saíram no mesmo dia, a última sexta-feira (25/8). Ele não lançava um disco fazia seis anos. O trio Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, desde 2002, quando os três fizeram o primeiro e único juntos.

Quase todas as críticas sobre os dois lançamentos, publicadas ao longo da semana, versam sobre um mesmo ponto: “Caravanas” e “Tribalistas” são “mais do mesmo”, não trazem novidades.

As possíveis qualidades de cada trabalho — e ambos têm várias — são colocadas em segundo plano em detrimento de uma necessidade de inovação, de sintonia com o que se tem feito ultimamente.

caravanasNão consideram o fato de que nem Chico Buarque nem Marisa-Brown-Antunes vêm lançando um disco por ano; aparentemente, não sofrem pressões de gravadoras e, portanto, trabalham num ritmo de criação próprios.

Pelo que se sabe, nenhum deles está numa posição de se submeter ao gosto do mercado — embora, claro, saibam da capacidade que têm de transformar sua arte em dinheiro e não desperdicem essa possibilidade. Então, não se pode acusá-los de lançar disco por lançar.

Por outro lado, imagino que os comentários não seriam positivos se Chico Buarque e Marisa-Brown-Antunes forçassem a barra para soarem mais, digamos, antenados. Que tal um rap aqui, uma participação de Pablo Vittar, Liniker ou Anitta ali? Aí sim seria ousado?

tribalistasPor que a urgência de parecermos modernos? Por que o desprezo pelo que já conhecemos? Por que a necessidade de seguirmos em frente com tanta velocidade?  Aliás, aonde estamos indo com tanta pressa?

A imposição do novo, provavelmente não é uma particularidade de nosso tempo, mas parece ter se agravado nestes dias de informação farta e veloz. O problema é que essa pressa de virar páginas nos leva para lugar nenhum.

“Caravanas” é puro Chico Buarque. E isso não é pouco. Estamos falando de um dos mais geniais letristas da música brasileira, e ele mantém essa posição com dignidade no novo disco.

Marisa-Brown-Antunes deixaram passar 15 anos. Tempo suficiente para o público que se deliciou com o disco de estreia sentir saudades e querer mais. “Tribalistas” dá sequência a uma proposta e uma estética, tem coerência e acrescenta muito ao anterior.

Vamos, portanto, ouvir com atenção. Sem alvoroço. Talvez até encontremos nesses discos outros defeitos que nos inspirem a escrever algo que não seja só “mais do mesmo”.

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