Visuais

Uma exposição e uma história de amor incomum

Por trás da mostra "A Casa de Lenore Mau" há uma história digna de filme

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (CCBB Brasília) até 20 de agosto, a exposição “A Casa de Lenore Mau” reúne 140 fotografias que revelam aspectos da vida e da paisagem brasileira do fim da década de 1960 e início dos anos de 1980.

Nesse período, a fotógrafa alemã (1916-2013) passou por cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Recife, São Luís, Aracaju, Porto Alegre e Brasília. Registrou em imagens a arquitetura, o carnaval, cenas da vida doméstica, o cotidiano em favelas e cerimônias religiosas.

Percorrer  “A Casa de Lenore Mau” é como chegar a um período específico do país, em plena ditadura militar, e apreendê-lo pelos olhos de uma estrangeira — visivelmente interessada em deter para melhor compreender o que passava diante de sua câmera.

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Mas, conhecer o trabalho de Lenore Mau nos leva necessariamente a se interessar pelos seus bastidores. As fotografias reunidas na mostra são também resultado de uma parceria criativa e amorosa da alemã com o conterrâneo Hubert Fichte (1935-1986).

Escritor e etnógrafo, Fichte influenciou o olhar da parceira. Um olhar que, ao mesmo tempo em que tentava descrever uma cultura, explorava também poeticamente aquilo que atraía o seu foco.

Para o curador Alexandre Santos, professor de história da arte e pesquisador da fotografia do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), essa noção de etnopoesia é o que distingue a abordagem de Lenore da presunção intelectual europeia.

“A fotografia de Leonore Mau não cataloga o exotismo do outro gratuitamente ou por interesses estéticos. Ela produz um olhar sensível e interessado na sobreposição de camadas entre o exótico e o familiar, a casa e o desterro, os ajustados e os desajustados sociais” (Alexandre Santos, curador)

Para além do trabalho poético-etnográfico que resultou nas fotos, Lenore Mau e Hubert Fichte protagonizaram uma história fascinante, de relacionamento anticonvencional e digna de um filme.

Entre os anos 1930 e 1940, ela era casada com o arquiteto Ludwig Mau, 20 anos mais velho, com quem teve dois filhos. Levava vida confortável numa mansão no bairro de Blankenese, em Hamburgo, e já fotografava para revistas revistas alemãs, como a Schöner Wohnen.

Mas nos anos 1950, com os filhos já criados, resolveu viver uma nova vida ao conhecer Hubert Fichte, 20 anos mais jovem e bissexual. Deixou a mansão para morar com ele em um pequeno apartamento na rua Elbchaussee, também em Hamburgo.

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A relação amorosa e os interesses comuns trouxeram o casal para o Brasil. Fichte se encantou, especialmente, por Salvador. Em seus escritos, ele descreveu os altares do candomblé em seu colorido e sua plasticidade.

Por conta disso, acabou alimentando um certa rivalidade com o etnólogo francês Pierre Verger, que se interessava pelos mesmos assuntos. “Ambos também eram interessados libidinosamente no mundo dos homens e frequentavam banheiros de estação e de cinema”, segundo o escritor e músico alemão Thomas Meinecke.

Isso não impediu que a relação com Lenore Mau se prolongasse por 25 anos. “Ambos trabalhavam de maneira simbiótica, além de muito experimental e conceitual. E se alimentavam disso intelectualmente”, conta a cineasta e fotógrafa Nathalie David, que foi assistente de Leonore.

Para conhecer mais sobre Lenore Mau, vale ler duas matérias produzidas pela jornalista e escritora Ulrike Prinz e publicadas em sites do Instituto Goethe. Numa, ela reúne três textos sobre o casal, por Nathalie David, Peter Braun e Claus Deimel. O outro é uma entrevista com o escritor e músico Thomas Meinecke.

Leia: Nos rastros de Hubert Fichte em Salvador da Bahia

Leia: Lenore Mau: “Seria possível da ruma volta ao mundo com uma câmera”

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