“Soundtrack”: para que, enfim, serve a arte?

Divulgação

“Soundtrack” não é um filme para qualquer plateia, ainda que as presenças de Selton Mello e Seu Jorge no elenco possam atrair grandes públicos. O drama dirigido pela dupla 300ml (Manitou Felipe e Bernardo Dutra) é em alguns momentos tão inóspito quanto a paisagem que lhe serve de cenário — a imensidão branca do Ártico.

É ali que está localizada a estação de pesquisa onde o fotógrafo Cris (Selton Mello) vai passar uma temporada numa espécie de laboratório para uma exposição. Motivo prosaico demais aos olhos dos quatro outros ocupantes do local, todos cientistas.

São eles o especialista britânico em aquecimento global Mark (Ralph Ineson), o biólogo chinês Huang (Thomas Chaanhing), o pesquisador dinamarquês Rafnar (Lukas Loughran) e o botânico brasileiro Cao (Seu Jorge)

O “inóspito”, neste caso, não é usado como uma crítica negativa. Pelo contrário. É justamente por não tomar caminhos mais fáceis que “Soundtrack” se torna um filme intrigante, para ser digerido lentamente, não só durante a exibição.

Dos seus silêncios e sua lenta ação, o espectador pode tirar diferentes interpretações. Pode, por exemplo, focar nos motivos existenciais do fotógrafo ou enxergar uma interrogação mais abrangente: qual a utilidade da arte?

Ao chegar à estação, Cris parece ter pela frente, entre outros desafios, o de mostrar aos novos companheiros o sentido de ele estar ali, fazendo o que está fazendo. Mark não entende como o visitante se propõe àquele isolamento de espontânea vontade, se ele adoraria estar em casa com a mulher grávida.

Ainda mais hostil ao estrangeiro, Huang não acredita no que ouve: “Ele veio aqui fazer selfies?!”, exclama. E diz mais à frente: “Se queria um fundo branco, por que não escolheu a parede de casa?”

Cris quer fazer fotos da paisagem gelada enquanto ouve música. Na exposição, os visitantes poderão apreciar as fotos ouvindo as canções que ele ouvia na ocasião das fotos — que nós, espectadores, não ouvimos durante o filme.

Numa das cenas mais emblemáticas de “Soundtrack”, Cris leva Mark a contemplar uma montanha ouvindo três composições diferentes. A música, a seu ver, muda completamente o sentido de tudo. Isso se aplicaria à arte como um todo. E o personagem encontra uma forma radical de mostrar qual a utilidade da criação artística.

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