“Danado de Bom” é mesmo o que o título anuncia

Divulgação

O Cine-PE anunciou na noite de segunda-feira (3/7) os vencedores da edição deste ano. Coincidentemente,  passa nos cinemas neste mês o filme ganhador do festival pernambucano no ano passado, o documentário “Danado de Bom”, de Deby Brennand.

No longa, a diretora estreante traça um perfil de João Silva, compositor de um punhado de canções que caíram na boca do povo brasileiro, gravadas principalmente pelo rei do baião, Luiz Gonzaga.

Como diz o narrador Siba, logo no comecinho do filme, é um personagem que “o Brasil conhece sem conhecer”. E aí está a importância do documentário, apresentar ao país esse grande artista, pernambuco de Arcoverde que viveu muito tempo no Rio de Janeiro.

Nesse aspecto, Deby cumpre bem a missão, com privilégio de contar com fartos depoimentos do próprio João Silva. Espirituoso, engraçado, performático — há momentos em que fala sozinho, como se pensasse alto ou estivesse encenando num palco — ele domina o filme, provoca muitas risadas e pega o espectador de jeito.

Uma grande sacada do roteiro é inverter a ordem cronológica, deixando para falar da infância de João quase perto do fim. A volta do artista a Arcoverde, 50 anos depois, é o gancho e rende uma cena emocionante, a do encontro dele com uma velha senhorinha que o conheceu criança ao lado do pai.

Enquanto perfil, “Danado de Bom” é completo. Fala da relação de João com Luiz Gonzaga, do problema com a bebida, do trato com as mulheres, do fato de o compositor ser semianalfabeto e escrever letras, das músicas criadas por ele — “Danado de Bom”, “Zé Matuto”, “Pagode Russo”, “Forrofiar”, “Chililique”, “Uma Pa Mim, Uma Pa Tu”

O longa estreou na quinta-feira (29/6) — portanto, é provável que, quando você ler este post, ele já não esteja em cartaz nos cinemas, pois documentários não costumam se demorar no circuito comercial.

No entanto, assistir a “Danado de Bom” em um serviço de streaming ou canal por assinatura não chega a ser problema. Um dos pontos negativos do filme é seu pouco comprometimento com a linguagem da tela grande, parece mais uma produção para tevê.

Incomodam, por exemplo, as entrevistas com o protagonista sempre em plano fechado, quando o ambiente ao redor poderia ser explorado cinematograficamente. Outro problema é a inserção de imagens sem a devida contextualização — caso das ótimas cenas de antigos forrós, que poderiam ser identificadas, dizendo onde e quando.

E um deslize menor, mas que não passa despercebido: as imagens que ilustram a música “Zé Matuto” parecem ser dos anos 1960, com mulheres usando biquínis de cinco dedos de largura nas laterais.

A música, porém, é dos anos 1970, e fala da tanga, aquela que as mulheres amarravam dos lados, e inspirou o compositor. Os laços são o que ele chama na letra de “rabichola nas cadeiras das muié”.

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