“Um Instante de Amor”: falta complexidade

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Difícil captar as intenções da diretora Nicole Garcia em “Um Instante de Amor” (“Mal de Pierre”, França, 2016), filme que integrou a programação do Festival Varilux de Cinema Francês e agora chega ao circuito.

No momento em que tanto se reclama uma relação de igualdade entre homens e mulheres, a cineasta e atriz francesa aparece com um drama no qual o que fica mais evidente é a oposição masculino/feminino, com clara desvantagem para elas.

Baseado no romance de Milena Agus, “Um Instante de Amor” gira em torno da jovem Gabrielle (Marion Cotillard), que desde a primeira cena parece obcecada pelo desejo. O impulso sexual descontrolado faz com que a mãe a considere “doente da cabeça”.

A solução é arranjar um casamento para a filha e o escolhido é o simplório pedreiro espanhol José (Alex Brendemühl). Gabrielle se submete à relação de conveniência, mas diz ao marido que não haverá sexo. A partir daí parece esquecer seus instintos.

Até o dia em que é internada em um hospital para tratar de dores nos rins e conhece o tenente André Sauvage (Louis Garrel), também interno. Perdidamente apaixonada pelo militar, a protagonista entrega-se a fantasias e distancia-se cada vez mais da realidade.

Nicole Garcia não faz nenhum esforço para que o público sinta empatia por Gabrielle. Assim, pouco adianta o esforço interpretativo de Mariom Cotillard. A personagem parece simplesmente leviana, frágil demais, sem que fiquem claros seus motivos.

Em oposição a isso, está a solidez de José, construída já a partir do tipo rústico de Alex Brendemühl.  Uma representação do que seria o senso prático e a objetividade masculina, o provedor seguro de si, moldado para cuidar da mulher.

Essa incapacidade de explicar a protagonista, de ir mais fundo em sua complexidade, é o ponto frágil de “Um Instante de Amor”. No fim, por mais que o drama de época seja envolvente e pontuado por momentos de delicadeza, fica o incômodo: esse contraponto simplista de mulher frágil/homem forte.

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